sábado, julho 16, 2011

Os outros

Debruço-me preguiçosa e demoradamente sobre a janela de nós, como uma qualquer mulher que chega a casa cansada e acende a telenovela barata, sem história. Deixa os sapatos perdidos à entrada de casa, sem amargura. No quarto, o filho joga dados como quem desafia o destino, o acaso, deus, a sorte. Silenciosamente. (Quantas noites fico eu no quarto de nós, na ideia de nós, a jogar os dados sobre um tabuleiro sem fim?) Vejo-nos correr ao longe, longe do mundo, sempre longe de nós. E não consigo evitar sorrir, até rir descontroladamente das armadilhas que montamos um ao outro, talvez a nós mesmos. Em casa, a mulher ri também, descortino-lhe uma ponta de desespero enquanto contempla o lava-loiça limpo e arrumado que em tempos o marido entupia com copos sujos, sempre por lavar. (Estará agora a entupir as ilusões das longas pernas da secretária?) Sem amargura. Na telenovela, a vida corre aos soluços. As personagens atropelam-se, representam mal aquilo que seria a vida, noutra casa os intelectuais vêem antes a dois, porque a vida dos outros não interessa. Além disso, os actores são maus. Mas nas outras casas, as pessoas são sempre outras… Nas outras casas é sempre fácil ser feliz.

A mulher desiste de fazer o jantar, tal como eu desisto de nós, todas as noites. Somos o jantar de microondas dos adolescentes que ainda não aprenderam a magia do que não é artificial, descartável, adiável. Sem amargura.

terça-feira, junho 28, 2011

Despedida

Enterra-me numa colina de onde se veja
O mar,
Num canto do teu corpo que não visites
Jamais.
Se me puderes dar verdadeiramente algo,
Quero só a terra e as pás.
E se não for pedir demais,
Quero morrer sem caixão, numa colina onde se possa ver
O mar.

sexta-feira, junho 17, 2011

Canção de salvar

As tuas palavras são o lugar onde o sol nasce,
Os meus olhos são o lugar onde o sol se põe.
Para que entre as tuas palavras e os meus olhos
Existam sempre dias e sóis sem fim.
Para que eu nunca deixe de te ouvir,
Para que tu nunca deixes de me ver.

quinta-feira, junho 02, 2011

Às aves

Por isso, deixo o meu corpo às aves.
O terror do mundo amadureceu
As amoras nas silvas antes
De chegar o Verão, e
Por este caminho ainda não passam
As crianças cegas em tropeções
Até ao mar. A apatia
Tomou conta de todas as
Mãos, e eu quero que dos meus ossos
Nasçam brinquedos ou cantigas
De embalar. Quero que o meu
Sangue seja só mais um copo de
Vinho quente com canela e maçã
Reineta, ou então tinta, ou fogo, ou mar.
A tristeza das gentes infiltrou-se
Por entre as esquinas das pedras,
Corrompeu os sapatos de quem não passa.
E eu quero que a minha forca
Seja o candeeiro de uma rua onde as
Pessoas não morram.
Por isso deixo o meu corpo às aves,
Para que durmam dentro de mim,
Me levem até ao Norte de África,
E me tragam de volta ao meu país
Quando já for Primavera.

quarta-feira, junho 01, 2011

As falésias

Perdida nestas falésias de imaginação,
Onde as crianças constroem vidas de brincar
Em jogos e correrias sem fim.
Sentada nestas falésias, onde desenhei
Cada pormenor do horizonte azul
E cada grão de areia que pisaste antes de partir.
Falésias de ilusões infinitas,
Onde os passos para o abismo
São um segredo sempre por contar.
Sobrevoo esse oceano sem fim,
Sem asas, sem caminho, sem retorno,
Sem paz.
Partir o corpo contra as ondas,
Perder a respiração contra o fundo do oceano,
Fechar os olhos, descansar.
E depois, acordar numa cama sem mar,
Areia, vento ou paisagem. Acordar
De olhos em lágrimas e joelhos em ferida,
Mas acordar.

segunda-feira, abril 25, 2011

Este cheiro

É algodão doce,
Nuvens brancas num céu limpo de Primaveras
Nunca adiadas.
Tem um toque de abismo e maresia,
De falésias que se desfazem
Imprevisível e repentinamente.
É ácido, tem umas gotas de limão,
Lembra mãos dadas à espera
De um adeus.
Tem razões à superfície,
E sonhos lá no fundo, no fundo
Sem fundo deste bailado.
Deixa na boca o sabor das maçãs
E nos ouvidos o sibilar das cobras…
Intoxica todos os sentidos,
E enquanto estiver aqui
Morrer e viver serão só dois verbos
Conjugados ao acaso de quem encontrou
Uma andorinha num canto sujo do chão.

quarta-feira, abril 06, 2011

As cascas

Entre o caroço e a casca
Dos pêssegos por colher,
Por dentro do amargo e do doce
Do que fica por viver...
Mora guardado, entre os lençóis já gastos pelos corpos,
Quem nunca provou esse fruto
Sumarento.
Entre o olhar e o desejo,
Ilude-se a textura dessa casca,
Desta pele.
Amargo ou doce, saberão os lábios…
Se os olhos permitirem a descoberta,
Um dia.

quinta-feira, março 31, 2011

As horas

As horas tardam entre as estrelas e os minutos infinitos que se erguem em mim como fantasmas. Os segundos arrastam-se, as tristezas dos telejornais são sempre anunciadas numa outra televisão. Nunca mais é hora.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Os sufocos

Sentada no cais da tua partida,
Humedeço de vinho os lábios que um dia bebeste.
Balanço os pés desafinados ao som de compasso nenhum
Enquanto te vejo partir sem que tenhas
Dado um único passo para esse além repetido,
Que visito num quase alívio.
Meu amor, está quase a chegar a nossa hora…
Não sei que camas se seguirão ao nosso frio,
Que estradas adivinharão os nossos caminhos,
Ou que pormenores restarão do nosso desamor.
Peixe sem asas e ave sem guelras que acreditaram,
Na magia dos começos bonitos,
Que seria possível viver na linha imaginária do horizonte.

domingo, janeiro 30, 2011

As videntes

Cantam desafinadas, de olhos brancos
E roupas escuras. As horas doces
Pertencem só aos que
Já partiram.

Os ninhos

Construímos o nosso ninho
No topo da árvore mais alta desta vida:
Onde os frutos colheram mais cedo
A luz do Sol,
Onde a vista foi sempre a mais bonita,
Onde as ilusões correram por nós
Ao sabor do vento mais frio,
E onde o adeus que nos embalou
Cantou com a eficácia de uma queda só.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

As pestanas

Sacudo as pestanas caídas dos meus olhos
Antes de desejar nada,
Sacudo-as como quem põe fora de casa
Um saco de lixo que começa a cheirar mal.
As ilusões que me salvaram ao longo destes meses
Começam a decompor-se. Sempre ao som
Das músicas certas, sempre ao som
Das pessoas erradas.

domingo, janeiro 16, 2011

Os corpos

Beber o mistério dos teus lábios,
Flutuando pelos silêncios intocáveis
Destes lençóis, destas histórias.
Experimentar a magia do impossível
No suor do teu corpo, madrugada nas searas,
Primavera no areal da minha solidão
Adiada.
Noites e dias que existem sem existirem,
Cavalgar o mundo num cavalo de carrossel.
Condenados pelo que não sentimos,
Entre a sofreguidão da tempestade na tua boca
E do porto nos teus braços,
Deixo-me fundir na tua pele salgada.
Onde o dia e a noite são as mesmas horas
Dentro de um quarto fechado,
Onde os sonhos são segundos de prazer
Finalmente conquistados,
E onde nunca sabemos que até já
É o último adeus.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Submundo

Vem encontrar-me no submundo
Das tuas ausências repetidas,
Embalar-me do fundo das tuas certezas.
Vem visitar-me aos lugares
Que crias e destróis com o poder
Das palavras não ditas que ecoam
Por entre todos os vazios das minhas tristezas.
Espero-te sempre neste submundo
Que percorres sem saber muito bem que aldeia é.
Eterno turista dos meus becos sem saída,
Que dormes sem nunca esquecer,
Como eu, o caminho de volta a ti.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Carnaval

Em nós vive só a esperança
De que um dia possa chegar um Carnaval
Onde as nossas máscaras façam sentido.

sábado, dezembro 18, 2010

Corvos

Adormeço nas asas de um corvo
Onde anoitecem os meus sonhos de outrora.
No veludo triste e fúnebre destas penas
Joga às escondidas de mim
Acriança que fui um dia.
E enquanto ela continuar a correr,
Não lhe vou poder explicar que tem de parar,
Que não vale a pena continuar a brincar.
(E espero secretamente que ela nunca se deixe descobrir)

Adormeço sempre à lareira das minhas ilusões,
Enquanto não me levarem,
São a razão pela qual fico aqui.
(Ainda que este aqui possa ser só um corvo sem norte,
Que pairando por entre a solidão de não ter em quem poisar,
Vai perdendo a vontade de continuar
A voar).

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Rio Tejo

Sei hoje que a vontade eterna que sempre terei de partir
É a mesma que a urgência que sempre terei em voltar.
Hei-de morrer num dia como os outros, mas nesse dia
Estarei sempre no Meu País,
Ainda que lhe negue momentos da minha vida.
Nunca haverá destino mais inatingível que o nosso
Nem inspiração mais nossa do que esta.
As noites, mesmo quando eu já tiver visto o mundo,
Serão iguais às de hoje. Não importam os lençóis
Ou o desalento, a pobreza ou a política;
O rio do outro lado da janela pode ser o Sena ou o Liffey.
Adormecerei sempre a ver o rio Tejo.

terça-feira, novembro 30, 2010

Sujas

É este vazio onde os teus
Passos ecoam à medida que não partes
De uma vez só.
E esta casa escura e sombria,
Que me chama, me sussurra, me encanta,
Me prende sem me prender,
Porque escolho sempre ficar
Neste mundo de duas cores apenas.
Na rádio tocam as mentiras que um dia
Me cantaste. E o sabor doce que me
Percorre o corpo todo é o mesmo
De então, O ver o abismo, fechar os olhos
E saltar sem querer saber de amanhã,
E saber tão bem, tão certo, tão meu.
(Na poesia a sério, as pessoas não sabem
Quem são, têm saudades do mar, voam
Com as aves e morrem afogadas na manhã
Seguinte, porque até a poesia pode ser demasiada.
Se eu escrevesse poesia a sério,
Sairia da tua ausência para cantar sem esta
Rouquidão que me atrapalha as palavras.
Mas como isto não é literatura, e os dias
Em que eu queria ser poeta já morreram,
Posso ficar nesta cama suja onde me visitas para sempre)
E de onde eu, no final de contas, nunca saio.
O amor é para as pessoas, e as pessoas não se
Deitam em camas sujas.

domingo, novembro 28, 2010

Cá dentro

Cá dentro uivam os chacais em ferida,
O Outono no jardim faz
Cair as ilusões das árvores
Como folhas amarelas.
Poderia ser algo bonito,
Como o Outono ou uma sonata
Em dó menor, mas é só a vida.
E sabemos que estamos aqui
Porque assistimos do alto de uma janela
A este filme triste.
Ver finalmente a verdade, sem ilusões
Entre os olhos feridos e a realidade.
Cá dentro uivam os lobos,
Como pode haver tanto medo?
E estas ilusões caídas no chão,
Que as pessoas pisam sem saberem…
Terei eu pisado, no tempo em que ainda
Ia ao jardim, as ilusões de alguém?
Brincam as crianças com as folhas,
Que o jardineiro afugenta como moscas.
Queria salvá-las, talvez salvar-me,
Dizer-lhes que têm de ter cuidado com os lobos,
Os chacais, ou os jardineiros. Mas avisá-las seria já
Condená-las e fico a vê-las cair na esperança
De nunca as encontrar numa janela como esta.
Choro quando percebo que a única
Coisa que queria realmente salvar
(E aí talvez sim, pudesse salvar o mundo)
Eram as folhas. Mas estão mortas, no chão,
Sem árvore que as faça ter uma história.
Sem um sonho não há ilusões que sirvam,
Por isso podem levar-me as folhas,
Fiquem os lobos.
E fecho a janela, fecho sempre a janela,
Que sem ilusões não se pode olhar as crianças
E ter paz.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Aterrorizada de ficar e aterrorizada de partir; de entrar no avião e de o deixar partir sem mim. Um medo infinito, é o que eu tenho neste momento dentro de mim e em todo o espaço à minha volta. Sei e não sei que está tudo na mesma, eu sinto-me tão diferente... Marchas de agonia, uma vontade latente de vomitar. Medo de não ter uma casa em lugar e em pessoa alguma, de descobrir que estou sozinha em todos os cantos do mundo. Um formigueiro que toma conta do meu corpo todo, e se só sei ficar quando tenho uma data de partida agendada? Talvez a distância me tenha feito romantizar os lugares e as pessoas, e elas me tenham, igualmente romantizado. O nosso reencontro será, então, um sonho bonito a desmanchar-se em menos de nada. É tão fácil e tão bom viver dentro da nossa cabeça. E uma ansiedade, como se estivesse à beira de um ataque de pânico que não começa para depois acabar. Medo de te reencontrar, mais medo ainda que isso não aconteça. E uma voz que sussurra do lado de fora da janela que só o facto de eu estar a pensar nisto não querer dizer nada senão que algo está muito errado. Desculpem-me a desilusão.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Lisboa I

É preciso que te apaixones
Pelo vento sem que te deixes ir
Numa roda viva de abandonos.
É preciso que saibas ir sem partir,
E que reconheças as lágrimas
Que não choras quando for tempo
De voltar.
É preciso fingir, de quando a quando,
Porque fingir também pode ser
Uma forma de verdade.
É preciso que lembres o som
Dos acordes do teu país,
E o cheiro do Outono na baixa.
E de vez em quando,
É também preciso que esqueças
Tudo o que é preciso
E tenhas coragem de viver somente,
Que é tão pouco e é tanto.

terça-feira, novembro 23, 2010

Eternamente

Eternamente sós.
Assim estamos, talvez para sempre:
Eternamente cegos,
Eternamente sós.

Deambulamos pela vida
Como quem passeia num parque de diversões
Antigo.
E ouvimos as pessoas ao nosso lado
Sempre no fundo de uma rua de um outro país,
Sem que nunca cheguemos a elas.
Aquela criança leva pelo braço um balão
E nessa imagem estaria toda a esperança do mundo.
Mas corremos perdidos por essas ruas cheias de gente
Sem nunca chocar com ninguém.
Nem com as crianças ou com os seus
Balões (e nunca pensámos que toda a esperança do
Mundo pudesse estar nalguns centímetros de borracha e ar).
Entramos sem querer no topo de uma roda gigante
De onde veríamos o Universo conjugar-se
Sobre os nossos olhos sem lágrimas.
Mas estamos eternamente sós,
Eternamente perdidos
Num parque de diversões sem princípio ou fim,
Onde a diversão acabou há muitos anos já.
No ar paira o perfume do algodão doce
Ao qual nunca poderemos chegar.
Ao fundo, está um carrossel igual aos dos filmes:
Os cavalos brancos descem e sobem em galope
Até ao céu, a música em acordes maiores
Anuncia felicidade gratuita, e as luzinhas amarelas
Prometem mais do que o que se pode realmente
Cumprir.
Caímos sempre antes de chegar
A esse lugar que sabemos que existe,
Mas que nunca conseguimos encontrar.
Eternos desadaptados dos sonhos,
Só aprendemos a viver debaixo dos nossos lençóis.
Oh, se pudéssemos ao menos ver
Toda a alegria para lá de um quarto escuro.
Há mágicos na rua, montanhas russas
E sangria. Jogos de tabuleiro, escorregas
Sem vendas até ao mar. Mas estamos cegos,
E se por acaso pudéssemos ver, não saberíamos lá chegar…
Por isso estamos cegos, eternamente cegos.
Por isso estamos sós, eternamente sós.

domingo, novembro 21, 2010

Por isso, sentamo-nos nesta ponte. O mundo levou-nos o brilho (ou será que nos esquecemos dele no bolso de um casaco que ficou na lavandaria?), e os nossos sapatos estão para sempre rotos. Houve um tempo em que vivemos nesta ponte, há muito tempo já, mendigos dos nossos sonhos. E se sempre adormecemos voltados para uma margem diferente deste rio, a ponte era a mesma. Havia, na solidão da madeira nas costas doridas pelas noites ao frio, uma espécie de conforto. Sei que o experimentaste também.
Sentemo-nos nesta ponte, falhámos os dois. Tu quiseste aceitar o mundo, eu quis aceitar as pessoas. Só o facto de o termos querido fazer é, por si, um precipício. Não uma falha no meio do caminho, como uma pedra da qual nos desviamos para não cair, mas uma canção de embalar. Flutuámos no correr deste rio, atordoados e salvos pelo mesmo desencanto. Às vezes, quando vejo os teus olhos, há ainda um abismo lá dentro que me apetece percorrer como os corredores de um museu de arte antiga. Ou talvez seja só eu a projectar um sentido nesta marcha de abandono. Ou de circunstâncias, ou de vida. Talvez eu te fizesse mal, afinal de contas.
Sentemo-nos, fala-me da tua paz sem monstros. Podemos até cair na melopeia de não falar, é só uma noite. E assim vamos achar que nos percebemos, talvez eu te faça mal. A única coisa que queria saber é se, por vezes, ainda queres cair. Porque também cheguei a esse paraíso, essa paz. Mas não me chega. E sei que estás a pensar que não me chega porque nunca cheguei lá. Chegarei um dia? Quero lá chegar? Há qualquer coisa nesta paz que me inquieta, que me é eternamente estranha e desconfortável. Como uma roupa bonita e colorida que visto para enganar os outros e a mim, mas que é cosida com alfinetes que me picam por dentro. Chego a casa ao fim do dia e quero despi-la. Talvez seja só mais uma máscara. O que são agora as tuas máscaras?
Passaram-se anos desde que experimentei esta paz. Dei-lhe uma casa arrumada e com luz. Mas depois de a adormecer numa cama quente de penas, eu ia deitar-me numa cave húmida com os ratos. E voltava de manhã, antes dela acordar. No fundo, queria só dizer-te que não estou bem, mas que este não estar bem me é confortável. E não aguento mais esta comichão de sorrisos, estradas sem sentido, corpos atrás de corpos para ter por uma noite algo como um prazer que se evapora sempre de manhã. Talvez não esteja pronta para deixar ir os meus sonhos, e queria dizer-te que vou voltar à nossa, a esta ponte. Ainda que te vá sorrir e dizer que está tudo bem, que é simples e bonito acordar, que estou curada. Ou talvez nem te volte a encontrar. Por isso, deixa-me saber onde andas. Mesmo que me vás sorrir de volta, responder que está tudo bem, que descobriste até que nunca estiveste doente. Oiço o rio chamar lá em baixo, e talvez precise de ouvir alguém que me chame do outro lado de uma mesma ponte.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Condicional

Sento-me no escuro do cinema de mim,
Uma sala vazia num país estrangeiro
Com uma tela ao fundo.
“Não cobramos para assistir a sonhos falhados”,
Ah, se ao menos eu ainda tivesse os sonhos…
E deito-me no chão de mim,
Pode ser calçada ou areia molhada,
Tanto me faz. Pergunto-me se serão
Um cheiro, ou palavras, ou pessoas, ou mar.
Pergunto-me se haverá algo
Além de uma eterna comédia, sarcasmo
Talvez, de ir visitar os meus sonhos ao escuro
De um cinema dentro de mim.
Mas já nem os sonhos são meus.
Alguém sussurra que naquela tela
Poderia estar o Universo,
E eu tremo, embalada na eterna conjugação
Verbal que são sempre os meus dias de
Sempre corpos, só corpos,
Passageiros do finito.
Quero querer saltar daquela janela,
Ou sair de casa no frio de Novembro
Para dar a mão a alguém.
Fazemos parte desta marcha para a apatia,
E eu queria sair do cinema a chorar.
Queria não olhar sempre para os meus dias
Como uma mão cheia de frases desconexas
Contadas na terceira pessoa.
Vejo os meus sonhos correrem fora de mim,
Ganharem vida para lá de mim,
E o movimento repetido deste baloiço
(Com a tela ao fundo no escuro de mim)
Faz-me poder jurar que não estou viva,
Que morri numa esquina sem nome
Há muitos anos já. Seria mais fácil.
Mas falta sempre acabar de fumar um cigarro,
Ou cinco minutos para o microondas desligar,
Ou quinze dias para te ver.
E neste eterno adiar,
Neste caminhar de ter só uma corda por baixo dos pés
Está guardado algo que ainda tenho,
Ainda que não lhe saiba o nome.
E talvez daqui a uma dúzia de anos esteja
Num quarto de hotel a olhar para isto
Que um dia vou perder. Que agora parece nada,
Mas que me sustenta por eu não saber o que é.
E talvez escreva um poema.

Baixa

Entre mim e a humanidade
Existe uma Humanidade perdida
Nos braços de cada homem.

Onde as ondas do mar se desfazem
Com o desencanto de existir
Apenas… humanidade como quem
Sussurra abismo: estrangeiro mas familiar,
Povoado de baloiços sem cordas.
Entre mim e a humanidade
Existe um precipício de sonhos
Adiados para horas mais certas.
E em mim, nos dias sem trevas, as florestas cantam
Histórias de encantar sem fantasmas
Pendurados nos candeeiros
De todas as esquinas sem luz.
Entre mim e a humanidade existem
Pessoas infinitas
Que vagueiam descalças pelas ruas
Alcatroadas de vidros. E fazem-no
Como se caminhassem sobre papoilas vermelhas…
Deambulam perdidas e visitam humanidades
Intercalares quando fecham os olhos
Numa almofada de rendas velhas.
Entre mim e esta humanidade
Há um fosso aberto no chão
Sem pontes para um outro lado.
E nesse fosso habita a Humanidade
Que nos separa; num buraco de terra
Húmida que é, para essa Humanidade,
Um salão de baile antigo.
Nesse baile dançam as ilusões
De quem é feliz de verdade:
Sem se perguntar porquê.
Os pés calçados deslizam facilmente
Pelo chão de veludo azul e estrelas,
As mãos nas cinturas e nos ombros
Rectos; e os vestidos de cetim
Voam ainda que não haja vento,
E os cabelos arrumados flutuam,
Ainda que não tenham asas.
Uma Humanidade perdida,
Impossível de encontrar,
Onde casas brancas se erguem
Sobre precipícios, e onde os deuses
Se sentam para chorar na mesma
Mesa, exactamente na mesma mesa,
Dos restantes transeuntes. E rezam juntos,
Ninguém sabe a quem…
Choram lágrimas invisíveis
Que guardam em gavetas para quando
A água faltar
(Ou para quando faltar a coragem
Para lembrar os fins de tarde
Em que o sol não se pôs,
Porque não havia um paraíso
De anjos brancos de luz que
Embalassem a ideia do porque
deus assim quis)

Procuro dentro da minha solidão
Um caminho de volta
A um lugar da paz de existir,
Onde o tormento de pensar
É só a espuma das ondas,
Que se desfaz antes do sono
E da esperança de ver o sol
Volver, cada manhã, ao horizonte aberto.
Um lugar que é, afinal de contas,
Lugar nenhum.
Que imagino deitada na cama até me doer o corpo,
Onde há comboios que partem
A todos os minutos para todos
Os lugares, sem apitos em tonalidades
Menores. Lugares de pessoas
De olhos grandes e brilhantes,
Que não acordam e procuram
Com os dedos pálidos e trémulos
O bater do coração nos pulsos
Já gastos pelo ritual.
Onde as crianças aprendem piano,
Coordenando as mãos ao
Som imaginado dos Minuetos
De Bach… Sentadas de cabelo
Alinhado e sem marcas de varicela
Naqueles bancos estofados
A vermelho escuro, numa sala
Cheia de partituras amareladas,
Mas sempre novas. Será que
Ainda aprendem francês?
Lembro agora, sentada, as histórias
Desse país. E procuro, desenho mapas
Escurecidos a chá preto, dactilografo
Cada pedaço desta solidão velha
Em busca desse lugar, desse país,
Dessa humanidade em quem toco
Enquanto desço a baixa, e no entanto
Tão longínqua que me pergunto, por vezes,
Se será só mais uma história de encantar.
Procuro incessantemente, estará
O caminho fora da minha solidão reclusa
De si? Procuro,
Mas nasci de olhos fechados, sem um
Único sonho ou bater de asas
Em mim.
Lá fora o frio batia à janela
Intermitente,
E quando a desabotoei fui por essa noite
Escura, sem saber porquê.
Quando abri pela primeira vez os olhos
Eu já tinha ido, seguraram-me
Contra o peito, mas no meu
Batia já um coração sem gente.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Na casa do lado

A porta vai estar escancarada,
Talvez haja um sem abrigo
Deitado naquele canto onde dormimos
Sem querer, quando o vinho
Não nos deixou chegar à cama.
Talvez haja um post-it numa janela
Que eu não escrevi para que tu,
Se fosses outra pessoa,
Pensasses no que eu queria
Dizer. Mas não digo, nunca digo,
E escrevo, mas tu não lês,
Ou se lês, eu não sei.
Por isso não vai ser precisa uma chave.
A porta vai estar escancarada,
Talvez haja uma mosca poisada
Ao pé da janela de onde vimos
O Frank Sinatra cantar para nós.
É só um vazio, um buraco negro
No universo das tuas descobertas.
Sabes há quanto tempo já parti?
Talvez as aranhas te deixem teias,
Para adivinhares.
Talvez as laranjas estejam já podres,
O cheiro do tempo…
Quando te quiseres mudar,
Não vais precisar de uma chave.
E nesse dia, algures num Universo paralelo
Eu vou acordar enrolada
Nas minhas ironias sem fim,
E vou tossir intoxicada de abandonos
Enquanto tu encolhes os ombros
E resolves sempre ficar
Na casa ao lado.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Love me tender

Quando o céu ameaçar cair lá fora,
Ou enquanto dançamos numa esquina
De um quarto feito de sonhos.
Quando formos à feira da ladra
Na próxima terça-feira
E eu te der a mão enquanto passamos
Pelos velhinhos que já perderam
Conta ao tempo (mas faz esta quinta-feira
Trinta e seis anos que se vêem todas as manhãs).
Nas tardes de sábado passadas
Sempre ao sol, mesmo que faça chuva, e
Sempre que eu adormeça longe de ti,
Nas quartas-feiras de cinzas…
E quando todos os segredos já tiverem
Sido sussurrados em manhãs de domingo
Com sabor a torradas e mel.
Quando eu disser que não acredito no amor,
E enquanto eu pedir mais cinco minutos nas
Manhãs de segunda em que as aulas me chamam fora
Das nossas janelas.
Nas sextas-feiras que eu risco no calendário
Para te ver e em todas as razões que existem
Para eu não escrever este poema,
Love me tender.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Experimentemos, então, os abismos.

Não seríamos mais do que esta pedra,
Se escolhêssemos partir.
Talvez quando finalmente chegássemos ao mar
Fossemos menos ainda do que esta pedra
Redonda que agora tenho na minha mão,
E que te dou quando encosto o meu ouvido
Ao teu peito.

Se escolhêssemos partir,
Seríamos sempre mais do que esta pedra
Que agora seguro enquanto ouves
O meu coração bater.
Chegámos a um lugar onde já não é possível partir,
Porque tentaremos sempre voltar.

domingo, outubro 31, 2010

Sempre

Nos teus olhos amanhecem as cores
De um país que não é o nosso.
Semeamos minas nos nossos corpos
Como quem colhe girassóis.
E enquanto não morremos, explodimos,
Sangramos, Contamo-nos histórias de embalar.
Nas tuas mãos o vinho canta-me ao ouvido,
Desafinando acordes entre paredes
De vidro sempre barato.
(Ou somos nós que somos baratos?)
E talvez seja por isto que na
Tua boca anoitece sempre uma
Língua estrangeira que se intromete
Nos meus sonhos salgados
Onde choro o mar do meu país.

Paris

Ao fundo brilha a torre Eiffel
São horas certas, com certeza.
Ao fundo brilha a vida,
Acenamos aos mortos do lado de cá,
Se eles nos vêem, nunca vamos saber.
Talvez não haja lado de cá.
Aquele brilho ao fundo
É só o rio Sena.
As iluminações de Natal já chegaram aí?
Não sei. É estranho que não tenhamos
De fazer nada para estar vivos.
Ao fundo, os amantes brilham.
Pere Lachaise pisca-lhes o olho,
Ri à gargalhada. Mas eles não
Percebem a piada, encolhem
Os ombros e continuam entre mais
Um beijo.
Queria que nunca percebessem a piada,
Que não houvesse malícia alguma
Quando dão as mãos na rua.
Mas eles chegam a uma casa que não é a mesma,
E abraçam e amam pessoas que não são
As mesmas.
O que é que está mal, a sociedade ou as pessoas?
E enquanto rio da ironia desta pergunta
Notre Dame brilha ao fundo.
Os cadeados na pont des arts fazem antever
Que exista mais felicidade no mundo
Do que aquela que podemos ver.
Deixemos os mortos na sua vida,
Vivamos a nossa.
Teremos tempo para nos conhecermos
Ou reencontrarmos um dia. Não apressemos as coisas,
E pelo seguro… Só para o caso desses
Amantes sermos nós, não vamos dar
As mãos, nem não perceber a piada.
Paris brilha (sempre ao fundo)
Sem que lhe possamos tocar.
E isso tem que chegar.

Pardon, je suis perdue.

Senta-se no muro alto, os pés a balançar sobre o vazio lembram um bailado simples, sem ritmo ou interacção. Como duas pessoas a dançar sozinhas na mesma sala… Talvez uma história comum as una sem saberem. Para já apreciam as maravilhas de poderem ser estranhas, sem uma conversa de ocasião para mostrar o quanto são sociais, adaptadas, capazes.
Do muro vêem-se as casas ao fundo, pequenas luzes, e vidas pequenas lá dentro. As televisões berram notícias de desastres insuportáveis, o pivot faz um ar sério, agora não há mesmo mais esperança. Mas a mãe pergunta se alguém quer mais cenouras, olha para os três filhos. Um está drogado (não que ela saiba já dizer a diferença), outro tem mais um 100% no dossier de plástico na mala (não que ela vá saber), e outro inscreveu-se ontem num curso de filosofia (não que ela vá fingir que não ficou desiludida. Se ao menos fosse médico…) São três mas são a mesma pessoa. O pai está no escritório, há dez anos. Ao longe parecem felizes, talvez o sejam.
O muro continua no mesmo lugar e o céu vai escurecendo, ainda que já seja noite. Neste momento biliões de pessoas vivem vidas que ninguém sonha existirem. Qual é a probabilidade de ter pensado na família em frente? Porque estamos sempre presos ao visível? A rapariga salta para o chão, durante uma fracção de segundos acreditou que ia torcer o pé esquerdo, mas ficou tudo bem. Está cansada da montanha russa de todos os dias, de se sentir sempre num parque de diversões onde a piada já acabou há muitos anos. Queria voltar a casa, ou encontrar uma. O que fazer com estes bocados de vida que lhe caem no colo sem que haja um continuo, um todo coerente? Como podem estar pessoas a morrer e a nascer no mesmo minuto?
Deambula sobre o parque silencioso. Acreditar no acaso cansa, não chega, às vezes. Mas onde está sentido, as causas, as explicações? Onde está a cola? Quando pensa no mundo tem a sensação de estar a olhar para um conjunto de páginas rasgadas de vários livros que encadernaram num mesmo volume só porque sim. E cansa tentar encontrar uma história que dê sentido às páginas, dói desistir e dormir parece uma bênção demasiado longínqua. Acende mais um cigarro, acende sempre mais um cigarro porque estas palavras nunca têm fim. São uma estação de rádio eternamente sintonizada, eternamente ligada. O pai chega finalmente. Há comida no frigorífico, se tiveres fome aquece. O telejornal chegou ao fim, o dia também. Num filme há uma personagem que diz que o amor é o que dá sentido a tudo o que existe. Mas eles já estão a dormir, não ouviram.
O cigarro começa a queimar os lábios. O coração de renda que a rapariga tinha preso ao casaco com um alfinete cai no chão de relva sem que ela dê conta. Ainda lhe põe um pé em cima antes de partir. Nem um tremor, um pressentimento, nada. É assim que nos tornamos mais frios, nem damos conta de como ou porquê. O resto são suposições. Talvez alguém tenha encontrado o coração, tenha sorrido e encontrado o sentido. Mas isso, ela nunca vai saber.

sábado, outubro 30, 2010

Antes que nasça o dia

Derramo o verbo antes que raie o dia
Em clarões intactos de madrugada.
Sentada no parapeito de uma janela,
Perdida no Janeiro de uma aldeia que não conheço,
Aqueço numa caneca de café os pés esbranquiçados.
Vejo duas raparigas bêbedas que se beijam no caminho para casa,
Uma senhora vestida de azul que abre as portas de uma padaria,
Um homem que acorda e se senta direito num degrau que ainda dorme.
Escreveria grandes odes sobre as suas vidas que não conheço,
Cobriria a tinta azul folhas e folhas de papel vegetal,
Mas o sol nasce-me fremente nas pernas descobertas
E entre um trago de café invejo secreta as raparigas que choram, retocando-se num gesto de amor a maquilhagem,
A primeira cliente da senhora de azul a quem desejo mentalmente bom dia,
O homem que tira de um bolso do casaco cinzento um pacote pequeno de leite branco.
Raia o dia numa aldeia, nesta aldeia, e num bailado lento recolho da mesa de madeira “manhã submersa” que jaz ao pé de mim.
Bom dia, queria pão.

Música

O barulho de fundo é ensurdecedor. Não há porta que o trave, travos só os da angústia que sinto surgir no fundo da garganta. Engulo continuamente em seco.

Ao pé da porta há um grande espelho envolto numa moldura de prata. Olho para mim devagar, contemplo os sapatos pretos e breves, de salto alto, que envolvem as pontas de um par de collants pretos e finos. Tenho o cabelo transformado numa obra de arte complexa e os olhos completamente ocultos em pós de cores pouco definidas e linhas pretas, estrategicamente colocadas. Talvez por saber que não posso chorar, talvez por saber que neste momento há estranhos que poisam caules de copos de cristal sobre o piano onde sempre toquei; sinto litros de água envolverem-me os olhos, completando perfeitamente os globos oculares. Desejo ardentemente poder suspender a gravidade, será uma questão de segundos até não poder suportar mais isto.

A porta abre-se vitoriosa e a minha mãe inicia uma salva de palmas com sorriso mais-que-perfeito conjugado sem erros ortográficos. Todos a imitam, sentando-se numa qualquer cadeira. Pego num guardanapo branco de pano e limpo o piano. Quis atirar os copos todos para o chão, num movimento agudo. Onde é os limites da sinceridade começam a tocar a má educação?Distribuo a saia azul clara sobre o banco, desaperto os punhos da camisa, poiso os dedos sobre o piano. O barulho de fundo é assustador. Falam de modas. Planeiam negócios. Trocam receitas para crepes de maçã sem movimentarem os lábios.

Devia estar agora a cantar interiormente o início da sonata, mas os únicos sons que tenho na cabeça são os da minha mãe quando me diz que “a música é para ser partilhada, para mostrar aos outros, para animar festas e dar concertos”. Não sinto nada disto, os dedos movem-se em pânico e dentro da cabeça desenrolam-se marchas de agonia exacerbadas. Odeio cada pessoa que me vê sem as poder odiar, falho todas as notas na cabeça e quando finalmente deixo cair os dedos no último acorde levanto-me rápida, agradeço, com uma inclinação leve de cabeça.

Vou a uma casa de banho, arranco com água cada grama de maquilhagem. Troco rapidamente de roupa e, na casa de banho de uma discoteca qualquer parto contra uma parede escrita todos os copos que lá foram deixados. Piso o vidro até ser pó e, como uma louca danço descompassada (sem notas afinadas, sem dinâmicas certas) até não me lembrar que há caminho para casa. A música não pode ser só assim, como vocês pensam.

Passeio no rio Sena.

Cinquenta e Quatro minutos que se arrastaram sem fim sobre as ondas do mar em fúria e sobre as palmas das minhas mãos de feridas cicatrizadas. Estão sujas e estão limpas, como é possível viver tanto mal de forma tão certa? Que mentiras são estas? Cinquenta e Quatro minutos, há vidas que duram menos. E entre o enjoo de ver o mundo correr em círculos e uma leve vontade de vomitar desejei morrer, embalada nas memórias quentes de não ter que pensar se parece mal, se está errado, se tem significado. Sou imune à maior parte das palavras, sabias? As pessoas falam comigo, eu aceno distraída, digo que sim e que não como quem brinca ao acaso. Mas depois os gestos, e a minha memória que volta pouco a pouco e arrepia tudo o que há em mim… Um tremor de terra interno. Não há um grão de maquilhagem que se mova, nem um cabelo que caia sobre o meu casaco preto. As minhas lágrimas continuam guardadas, arrumadas para outras dores. Mas por dentro, cá dentro, vou estar para sempre naquele mar, numa viagem sem fim para uma casa que não é a minha, para perto de pessoas que não são minhas, nem nunca poderão ser. O chão está vermelho, não há cicatrizes que segurem tantas perguntas sem resposta. E depois a banda sonora são estas vozes, sempre as vossas vozes que me dão o mundo e mãos sem sangue. Depois, levam os vossos sapatos sujos, deixam pegadas no meu chão que não saem nem com detergentes caros. E dizem sempre a mesma coisa, sempre as mesmas frases, tão frágeis que acho que se vão partir. Ou sou só eu que sou frágil? Sou imune à maior parte das pessoas, sabias? Só me conseguem salvar as pessoas que têm coragem para cair comigo, ver o mundo lá de baixo e sujo de verde como eu (mas Carolina, foi só um acidente). Chego ao meu destino, à minha estação que não é minha. A terra treme, eu tremo, e o mar chama-me: aqui não tens de chorar, todo eu sou água. As ondas ameaçam atirar-me para o fundo de qualquer coisa dentro de mim. É irónico. Há noites que não pertencem a este mundo, a esta vida. Porque deixarão, então, memórias? Mergulho no mar sem fundo para morrer num lugar onde, por umas horas, não houve porquês.

Castelo de Cartas

Perdida num conforto falso,
(Mas ainda assim real)
De inventar novidades felizes
Para as vozes distantes ao telefone,
Procuro a minha paz
(Ou um intervalo para as minhas guerras)
Como lhe quiserem chamar.
E esqueço, como quem se esquece
De fechar a porta antes de sair de casa,
Que há coisas que só se encontram
Quando não se procuram.
Perco-me entre as dobras dos lençóis
E chego a acreditar que esta cama é um país
Deserto e em sangue onde desembarquei
Sem navios ou tripulação.
Invento sorrisos para mascarar as palavras
Que não sei, nesta língua de fogo,
Morte ou religião. E invento,
Crio uma vida que não é a minha com
Uma facilidade que me assusta.
E vivo-a; por mim, por quem?
O que as pessoas do outro lado do telefone
Nunca vão saber é que sou só um castelo
De cartas que cai sempre
Quando tentam por a última carta.

Nada

Vem dar-me a mão,
Está frio cá dentro
E não consigo chorar.
Vem adormecer-me
Para sermos felizes para sempre
Durante um fim-de-semana
(Ou um fim de tarde,
Se dois dias for pedir de mais).
Entra acidentalmente
Nos meus pesadelos
E pinta nas paredes
Um campo infinito de malmequeres.
Segura-me, não me deixes ir,
Não deixes esta solidão incansável,
Insaciável, Infinita,
Tomar conta de mim…
Levar-me para longe.
Porque longe já eu estou,
Já tu estás,
Talvez desde sempre,
Talvez para sempre.
Bem me quer, Mal me quer.
Muito. Pouco. Nada.

06.10.2010

terça-feira, setembro 14, 2010

je t'aime

Nas palavras e nos sons de alguns poetas

A morte é um berço de penas quentes

Onde saberia bem descansar, apenas.

Há ainda os filmes onde o sangue

Ainda quente no chão são quase rosas e

Escolher morrer sabe quase bem, no final do Verão.

Na rádio velha, passam as canções de quem

Não ficou, de quem não pode ficar. E os acordes

Demorados entre a doçura de uma voz distante

Mascaram a verdade com ramos de flores.

A arte romantizou os suicídios, ou terão sido os Homens?

Talvez a morte seja romântica para quem vai, se tiverem sorte

A morte será só o nada. Para quem fica, para quem aos

Domingos põe numa campa fria ramos de flores

E lágrimas, para quem se deita na terra para estar

Mais perto dos ossos, já que a carne não ficou,

Para quem fala sozinho, porque os mortos não respondem,

Os suicídios não são românticos, são só um vazio infinito.

Que já não fica bem num poema, que não cabe nas legendas

De um filme sempre estrangeiro, nem rima

Numa canção.

(Por favor, não vás também)

quinta-feira, setembro 02, 2010

I want you to know what I think, I don't want you to guess anymore

"Daydream delusion, limousine eyelash
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm a delusion angel
I'm a fantasy parade
I want you to know what I think
Don't want you to guess anymore
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Lodged in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?"


Fotografia: Saul Leiter
Poema: Poeta em Viena

quinta-feira, agosto 12, 2010

Não te deixo cair

Alguma vez te leram a história da Alice, meu amor? Lembras-te do buraco onde cai, quando vai atrás do coelho branco? Tenho um buraco assim dentro de mim. Nunca ninguém descobriu se tinha fundo. Ninguém sabe se existe caminho de volta. Perderam-se todos numa floresta de sonhos, e quando sem querer viram o buraco, partiram. Alguns olharam para ele, durante meses e meses a fio. Chegaram a sentar-se com os pés do lado de dentro, mas nunca ninguém saltou, bateu no fundo. (Se um dia lá fores, traz-me de volta, por favor)

terça-feira, agosto 10, 2010

São só doze (II)

Toda as gentes desta casa, deste museu, insistiram comigo continuamente, durante anos. Até que desistiram, com a eficácia das maiores falhas: sem se perguntarem porquê. Limpa aquele armário. Não, aquele armário é assim, desarrumado e cheio de pó, é assim que ele é. Não posso mexer-lhe, ninguém pode vê-lo, arrumá-lo ou limpá-lo, porque ele é assim. Mesmo que o fizessem, ele continuaria sempre sujo e desarrumado.
Estive a adiá-lo. Não porque soubesse exactamente as razões, mas porque sabia que era assim. Hoje teve que ser. Encaixotar o armário dos meus mortos vivos, ocupam tanto espaço já. Ainda não chorei, mas sei que tenho coisas por dizer.

D. Encontrei a caixinha que uma vez me deste, feita de madeira, com um vidro e um guardanapo pintado. E um coração que brilha no escuro, onde se pode ler na tua caligrafia redonda e certinha Adoro-te Carolina. Descobri ainda a cartolina que decoraste com um poema meu, e os teus desenhos e comprimidos. E um envelope. Lá dentro um coração de espuma, e novamente a caligrafia: a seguir a uma primeira oportunidade, vem a uma segunda. E se essa segunda não chegar haverá sempre uma terceira. Tanta verdade em tão poucas letras. Queria ter visto esse envelope muitas mais vezes durante a minha vida. Queria ter-te ido visitar e comer doce de amora e pão caseiro, e que tivéssemos tocado o over the rainbow afinadinhas e de sorriso no rosto, orgulhosas da simplicidade das coisas bonitas. Queria ter chocado mais vezes contigo no metro, Ofélia dos meus poemas.
M. A tela azul e turquesa, os postais escritos com juras de amor eternas. E o dia em que fomos a Lisboa, e eu comprei aquela saia branca contigo. Quando me sentei contigo no café, uns dias atrás, o mundo voltou atrás também. E contei-te a minha vida como se ainda ontem tivéssemos trocado aqueles postais e cantado juntas a Alice (lembras-te, as nossas vozes eram iguais). A tua memória sabe sempre aos cappucinos que íamos comprar ao mini preço quando no intervalo dos ensaios não havia mais, e às tardes em que me esticavas os cabelos e me maquilhavas com aquela base que cheirava a pêssego. E eu sentia-me bonita, então. Menina turquesa do meu coração.
G. A carta que me escreveste quando eu fiz 18 anos. Lacrada a roxo, num envelope de papel reciclado que guardava as folhas de caderno diário mais preciosas deste mundo. E o contorno da tua mão desenhada nessas folhas. Quando encostei lá a minha mão, o quarto ficou quente. Íamos ser amigos para sempre. E sabíamo-lo com tanta força, já tínhamos passado por tanto. Tu aprendeste a ser adulto comigo, e eu aprendi a ser criança contigo. Foi a coisa mais bonita que aprendi. E quando tu me davas a mão antes de entrares em palco… Não porque estivesses nervoso, mas para me dizeres descansa, estou aqui para sempre. Obrigada por também estares, gosto tanto de ti. E agora esta estranheza. Os meus passos a tremer em direcção a casa, não por mais nada sem ser a dúvida. A dúvida se algum poderei voltar à tua. A duas mãos, fotografias bonitas que eu fui perdendo. Ficou a tua carta.
I. Não imaginas o que eu encontrei, I. A lista, lembras-te? A lista de todas as coisas que eu queria ser e fazer, e que escrevi ao pé de ti. Já cumpri uma, I, acreditas? Já consegui fazer uma, e talvez faça outra, antes deste ano acabar. E encontrei a tua carta, muito direitinha, escrita a roxo, no NFPC. Disseste tantas coisas bonitas, num discurso organizado e brilhante. Lembro-me do fascínio, nesses dias. Da descoberta, então maravilhosa, de que não estava longe de todos os seres humanos. E os desenhos nas paredes que tivemos de apagar, e as tardes a andar de baloiço que não voltámos a repetir. E encontrei o lápis roxo que me trouxeste nos anos, I! Tem pouco mais de dois centímetros, mas fui ao espelho e voltei a pintar os olhos com ele. De repente, tinha outra vez dezasseis anos, e estava a entrar no autocarro para te ir visitar a Lisboa. Lembro ainda o 25 de Abril em que fui ter com vocês à praia, e rodopiei sobre o mar. Libelinhas e efémeras poisadas na verdade do seu nome, que dou por mim a desejar serem só mais uma mentira.
P. Em todo o lado, como não podia deixar de ser. Tenho a certeza que me vou esquecer de tudo o que encontrei. Foi uma cassete pequenina com concertos gravados que eu nunca passei para dvd (medo?), e a cassete que um dia, antes de tudo acontecer, desenhei para ti, e ampliei. E o livro de poemas, como é possível? Como é possível que eu tenha decido dar-te os meus poemas? Descobri garrafas de bacardi, gin e vodka, algumas muito cheias ainda, de quando vinhas jantar cá a casa. Já devem ter mais de dois anos, será que o álcool se estraga? Bilhetes infinitos de autocarros e comboios, e o cd de sigur rós. A caixa dos miminhos, com os rebuçados todos lá dentro (será que os rebuçados se estragam?) e um papel branco rasgado, com uma só palavra escrita. A camisola com que dormi tantas noites também está por aqui e olho tudo. Sei que à distância vivemos ainda o alívio da nossa distância. Dos dias em que a necessidade desse alívio não existia, resta pouco. O dia em que fomos ao teatro (13.Julho.2007) e em que eu chorei baixinho enquanto me abraçaste, ou o dia em que fomos buscar as tuas coisas a Lisboa. Depois, tudo manchado a sangue e palavras sujas. Talvez um dia. Não, talvez não.


Os pensamentos correm-me depressa pelas mãos sem que consiga vê-los com precisão. Penso em deitar tudo fora, que o que tenho que guardar está dentro de mim, mas não consigo. Quando pego nas primeiras folhas para as rasgar forma-se-me um nó imenso na garganta que não consigo desfazer. Depois corro para o telemóvel, quero falar com vocês, contar-vos o que acabou de acontecer. E de novo o nó na garganta. O que é que eu vou dizer? Que talvez só queira um dia vosso, para tentar ser a menina que fui um dia ao vosso lado. Mas que já não sou, e tudo perde o sentido. Olho tudo, monto um caixote e guardo as coisas com carinho. Numa das mudanças que já fiz foi exactamente este o caixote que se perdeu. Olho-o, já fechado, e pergunto-me que destino lhe daria agora, se pudesse escolher sem ter que admitir que escolhi.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Para T.

"Conto. Pouco mais de vinte dias, não tive coragem para voltar atrás no calendário e confirmar para ter a certeza. O mais estranho é que sei que isto não tem importância alguma. Quantos já foram e voltaram sem que o mundo tenha mudado? Fica quem ficar. Quero estar lá sem ter que ir, sem ter que apanhar um avião, sem sentir que queria um último abraço. Mas vou sentir. Pergunto-me do que terás saudades, é engraçado… Acho que temos saudades das coisas pequeninas. E pergunto-me repetidamente se quando vires passar uma qualquer rapariga ruiva te vais lembrar da flor de tecido vermelho nos meus cabelos, sempre em desalinho. Ou se ao te contarem um segredo vais sorrir por te vir à memória um meu. Talvez estejas, até, um dia deitado na cama à espera de ter sono e vejas os meus olhos no fundo dos teus, como quando eu quero chegar ao fundo, nem sei eu do quê. O olhar que eu faço quando estou a descobrir-te e todos os pormenores são simples, bonitos e valem a pena.

Suspiro. O Chico canta o meu nome, existirá uma letra mais verdadeira? Lá fora amor, uma rosa cresceu, todo o mundo sambou, uma estrela caiu. Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, olha que lindo. Mas Carolina não viu. Não vi… Perco-me nesta angústia que me deixa dormente. É como se dentro de mim houvesse uma chaleira a apitar, e eu vou correndo tudo aos tropeções sem conseguir encontrá-la. E é este apito agudo que me incomoda, às tantas não sei se é um comboio. E se for, entro nele ou não? Quero não pensar nisto, e fazer parvoíces, daquelas com significado, como mandar uma mensagem a alguém que está sentado imediatamente à nossa frente. Quatro palavras apenas. E o meu sorriso parvo. Sei exactamente o que me vai fazer falta. Sei os gestos que me vão fazer falta, as palavras que vou desejar até ao desespero, e os olhos, mesmo que os meus guardem tanta dor, e que nas minhas mãos as rosas morram, as festas acabem e os barcos partam.

Sorrio a medo. Chego a rir de mim, das minhas ilusões. Não vão haver saudades, nem um suspiro ou um encolher de ombros quando uma rapariga ruiva passar, ou uma rosa vermelha estiver caída no caminho. Há horas que não pertencem a este mundo, a esta vida, que existem sem existirem, e nós pertencíamos a elas. Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela, e só Carolina não viu. "

P.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Para quando nada chegar

Se as palavras

Não chegarem,

Se os meus olhos em lágrimas

Não chegarem,

Se os braços e os lábios

Não chegarem,

Se os anos

Não chegarem,

Fica um poema.

sábado, julho 31, 2010

Baloiços

Quero morrer nas cordas
Dos baloiços da minha infância:
Sempre pendurados em cerejeiras
Sem flores ou frutos.
E quero morrer com o vestido
Sujo de cerejas,
E as mãos a cheirar
A terra molhada.
Quero morrer com os bolsos cheios
De formigas
E os lábios rubros, semi-abertos
Pelo vento que zumbe
Contra os sinos de uma igreja
Desconhecida e branca.
Não quero morrer sem que
Veja voltar ao ninho mais uma
Cegonha do Alentejo,
Imponente e serena contra
Um céu sempre límpido.
Sei que hei-de morrer num dia
Como todos os outros,
E que o dia que lhe seguir será
Exactamente igual aos outros.
Só quero ir, suja de terra e cerejas,
De insectos, melodias e cegonhas.
Acima de tudo, quero morrer sem sonhos
E sonhar até ao dia em que morrer
Enrolada nos fios dos baloiços
Da minha imaginação.

terça-feira, julho 27, 2010

São só doze

É por isto que o cheiro a fita-cola me incomoda… Não o da fita-cola normal, mas o desta castanha e grossa, e o barulho ensurdecedor que faz à medida que se liberta do rolo. Acho que é porque eu choro sempre baixinho, e talvez ela ache que deve gritar por mim. Gostava de saber como se põe a vida dentro de caixotes, porque embora a noite tenha sido um baile de montar caixas de cartão, por lá dentro coisas e fechá-las escrevendo no topo o seu conteúdo, sinto-me sempre frágil quando as olho. Quais delas se irão perder desta vez? Talvez viver seja só ir escolhendo o que deixar para trás… Por que pessoas não lutar mais, que livros dar às bibliotecas das escolas onde o meu pai trabalha, que roupas doar a instituições de caridade, que filmes dar aos vizinhos, e, no fundo, o que guardar no meio disto tudo. Dizem que o que tem de ficar são as memórias, mas nunca é assim. E eu não sei… Não sei se os meus filhos vão ser hippies ou betinhos, se vão gostar dos arrepios, dos cinco, ou de uma aventura, de filmes de princesas ou de filmes de aventuras. Não sei o que guardar. E depois vem a voz ao fundo do corredor deves achar que eu tenho uma arrecadação para guardar as tuas tralhas todas. E queria gritar, queria gritar muito, porque pus a minha vida em pouco mais de uma dúzia de caixotes. Vinte anos assim arrumados. Será que os senhores das mudanças vão aguentar com as caixas? Deito tanta coisa fora que me arrepio, tento não pensar. Desculpa Inês, não guardei a moldura que me deste, desculpa mãe, não guardei a carta que me escreveste, desculpa tia Lurdes, não guardei a boneca que uma vez me deste no Natal, desculpa Carolina, estou-te a deitar para o lixo, como já vai sendo hábito. Aguentas? E depois as coisas das pessoas que foram embora, que eu escondi e que aparecem sempre nestas alturas, como não podia deixar de ser. Eu perdida, a pensar se foram presentes ou esquecimentos, se devo perguntar se querem ou não as coisas de volta. Mas suponho que não queiram, afinal de contas foram embora. Se quiserem saber posso dizer que ficaram num caixote que se perdeu. Não ficaram… Estão no fundo de um caixote do lixo, com as minhas cassetes da Disney que eu vi até se estragarem, com os meus sonhos de ser feliz para sempre e que eu até agora me tinha recusado a deitar fora. Lá teve que ser. Um monte de sonhos rotos para o lixo… E de príncipes encantados. Encontrei-te a caminho de casa, cheia de caixotes por montar, toda despenteada e de fato de treino. E tu olhaste para mim ao de leve, nem paraste. Um olá rápido. Queria ter deixado cair tudo no chão e sentar-me na calçada, ainda que suja, para chorar um bocadinho. É estranho que tenhas uma vida nova e que eu ande a deitar tudo fora. Mas não pude parar. Um pé atrás do outro, vamos lá até casa, ainda há muito para arrumar, choras depois. Nem olhei para ti, para a tua cara. Reconheci-te pelo andar, depois pela voz. Lembro-me de pensar que queria estar bonita e confiante quando te encontrasse novamente… Mas que hei-de fazer, logo havias de me encontrar exactamente como eu sou, e não tive tempo de inventar uma máscara, de fazer desaparecer os caixotes, de pentear o cabelo, de vestir uma roupa bonita, de pintar os olhos, de esconder a voz trémula. Queria parecer bonita, queria que soubesses que estou bem, mesmo que eu não esteja muito bem e que não te interesse sequer como eu estou. Olho para a minha vida em caixotes, decidi guardar os livros todos. Lá foram os filmes e as roupas, os bonecos e as prendas dos que em tempos cuidaram de mim. Não sei se fiz bem. Sento-me na cama a tremer, pergunto-me que caixas vão desaparecer desta vez, novamente. Queria um abraço agora, mas faltando-me melhor, deito-me na cama (será que também a devia ter posto num caixote?) e enrosco-me nesse lugar imaginário onde não há vidas para deitar fora, nem pedaços dela para embalar. Se acreditasse no Natal, talvez embrulhasse e pusesse lacinhos coloridos em todos os caixotes. Mas esta noite é exactamente como o Natal, já não tem nada de bonito. Até as luzinhas dos prédios em frente de mim estão apagadas e mergulho de olhos fechados nos meus próprios pesadelos.

sábado, julho 03, 2010

Vem buscar-me

Vem buscar-me.
Vem buscar-me.
Vem buscar-me devagar, quando eu estiver a sonhar.
Vem buscar-me em pés de lã, numa viagem só. Não quero ir pouco a pouco.
Vem buscar-me. Pega-me ao colo e leva-me para esse lugar mágico de vazio, onde não importa o corpo. Importarão as palavras?
Vem buscar-me, não quero chorar mais. Não quero olhar mais para o chão e ver-me nele aos estilhaços.
Vem buscar-me, não tenho conserto. As cordas do baloiço finalmente partiram-se. Porque estou eu ainda aqui?
Vem buscar-me. Abraça-me com força e não mintas. As mentiras são bonitas, mas eu não. E preciso de ir entretanto.
Preciso que me venhas buscar. Agora. Vou deitar-me devagar, fechar os olhos devagar, para que me venhas buscar devagar.
Vem buscar-me. Não tenho heranças. O tempo corre e nós vamos ficar para trás. Um dia, eles vão ser grandes médicos, grandes advogados, grandes empresários; se tiverem sorte serão pessoas. Eu não. E a parte mais bonita, é que não vai importar.
Vem buscar-me.
Vem buscar-me.
Vem buscar-me.