segunda-feira, novembro 21, 2005

Até.

O cheiro da roupa funde-se com o cheiro dos shampos e dos corpos. Um vapor denso envolve o ar e há pancadas secas na porta amarela, ao ritmo dos passos que se afastam.

Tens amaciador, tens escova, emprestas-me um chinelo e vamos ao pé-coxinho, tens batom, vais para casa – a repetição mole das mesmas perguntas por ordem crescente todas as semanas retira-lhes elegantemente a entoação da intenção inicial – viste o que ele me disse, viste onde me tocou, viste como me ajudou. E todas vimos, sorrindo com os olhos. Não há ponto de interrogação que sustente esta conversa.

Como é bom sair para a rua fria, sentir a chuva pequena sobre o cabelo já molhado anestesiando-me dos cheiros forçados. Não ter noção das horas que anoitecem demasiado cedo e não ver já bem o chão. Sentir as rugas dos dedos sobre a pele que parece desfazer-se, olhar o relógio e fugir cada vez mais depressa para que a atmosfera não me embale. Finjo sentir uma pulsação que escolho quase aleatoriamente e transformo a minha mentira em ritmos pouco rigorosos no caminho até à casa onde o tempo me aconchega na sua relatividade.

3 comentários:

Rui Correia disse...

A presença da tua voz neste enorme espaço cheio de coisa alguma faz-se ouvir. Eu ouço-a e muitos a escutam. Faz-te ouvir. É bela e temível a mansidão, quando nasce de um travo leve e áspero de enxofre.

Carolina disse...

É quente continuar quando sei e sinto que, se há eco, não se manifesta no vazio.
A envolvência das palavras que, como resina, permitem que se produza som.

Muito Obrigada.

Anónimo disse...

I really enjoyed looking at your site, I found it very helpful indeed, keep up the good work.
»