segunda-feira, novembro 21, 2005

Ponta dos dedos do chão

Quando chegou a casa descalçou metodicamente os sapatos castanhos e redondos. Desapertou a fivela e encostou-os à parede perto da porta de entrada. Acendeu a luz amarela do corredor principal e tratou de arrumar uma manhã apressada pelo conforto de vários minutos acordados na cama aquecida pelo seu próprio corpo.

Aproximou-se do lava-loiça e deixou a água correr sobre as mãos. Foi rodando a torneira para a esquerda até não aguentar mais a quentura translúcida sobre as veias dilatadas. Devolveu aos armários brancos a loiça estampada e acendeu no corredor largo e imponente uma vela alta, oferecida no aniversário passado pelas colegas de trabalho.

Entrou no quarto, ignorou uma vez mais o sentimento de estranheza perante os caixotes escritos, ainda amarrados com fita castanha. Aleatoriamente distribuídos num chão escuro que transformava a casa num local escondido e pequeno, já faziam parte da mobília onde se poisava uma meia por coser ou uma chávena de leite que só se descobria quando já tinha arrefecido.
Sentia, quando olhava para eles, que precisava de mais coragem para desencaixotar os livros que lá se encontravam do que precisara para os encaixotar. Com o desconforto repentino que era pensar no que ainda estava por arrumar, agitou repentinamente a mão, cortando a densidade fria do ar, numa tentativa frustrada de afastar o cérebro das emoções.

Voltou ao corredor, sentou-se sobre os joelhos perto da vela e apagou a chama. Mergulhou então, um por um, os vários dedos das mãos na cera líquida que rodeava o pavio ainda incandescente. Primeiro a sensação de se estar a queimar, milésimos de segundo mais tarde, o sentimento de conforto inerente ao corpo. Depois da cera seca sobre as unhas descoloridas era fácil retirar esta segunda pele que colocava novamente sobre a concavidade da vela muda. Só reparou que o era quando nessa tarde, por entre a solidão que era estar consigo, sentiu necessidade de ouvir alguém. Mas os vizinhos odiavam barulho e havia uma redoma de vidro fino e quebradiço por sobre o silêncio de cada um. Desta forma, nem os silêncios se tocavam.

2 comentários:

barbAs disse...

Já te disse mais que uma vez, fazes as coisas pequenas(que não são nada pequenas, são enormes, ainda que simples) encherem-se de um significado, duma realidade nova por tocar. Obrigado pelos momentos de vidas que nos dás a conhecer em linhas trabalhadas letra a letra.

conteúdo latente disse...

Obrigada, também, pelos olhos atentos. (:
beijo grande