quarta-feira, dezembro 07, 2005

Hibiscos

A rotunda é uma elipse preenchida por prédios densos de fumo cinzento-espesso. Três. Se todas as janelas dos três prédios fossem abertas em simultâneo seria possível visualizar um lado do exterior da elipse através do outro. Não fosse a roupa pouco garrida persistir no longor gravitacional do ar perpendicular ao chão arenoso e as paredes seriam transparentes, corrompidas pelo fumo.

Uma mulher vem à janela de um terceiro andar, gira os arames enferrujados que pendem presos à parede por debaixo dela e estende, primeiramente um pano de tecido grosso e amarelo, onde ficará a ferrugem avermelhada que se solta do arame sempre húmido para se alojar nas fibras lavadas.

Seguidamente, ampara um lençol muito grande de flanela branca que recolhe de um alguidar verde, sustido pelo parapeito frio da janela. Estende-o também, sobre o primeiro tecido grosso e desfaz com as mãos ásperas pequenas saliências, sobre a zona do lençol que pende por sobre o arame.
Mantém-no sob o suor dos dedos até ao momento em que gira sobre a sua própria cintura para alcançar as molas de plástico amarelo. Quando retoma a posição inicial, o lençol com o peso da água lavada inerente a si já é um plano complanar ao chão de areia de pedras pequenas.

Quando depois de descer a escadas nos chinelos de tecido grosso chega a si, recolhe o tecido de flanela e estampa nos olhos o desespero que não grita. Soergue-se nordicamente, enrola o lençol em volta das mãos, sobe uma rua tangente à elipse e deixa o lençol coberto de chão no canteiro de hibiscos de alguém que não conhece. Distribui o tecido em redor dos caules.

Abre a porta de casa novamente.
(Deixa os chinelos, também eles cobertos de chão, ao pé do interior da porta que fecha devagar, numa tentativa de provar a si mesma que consegue ser delicada. Como os hibiscos, imóveis perante o lençol. Tão bonitos, os hibiscos.)

1 comentário:

Anónimo disse...

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