sábado, dezembro 24, 2005

por extenso, caro poeta, por favor.

Vejo-te em palco, caro poeta enlevado numa lenga-lenga repetida de não querer saber como nem porquê ou pensar. Marcaram a giz branco as paredes da tua casa no chão frio, mas o cabelo que se espalha no soalho dorme como um mendigo orgulhoso do relento que já não o deixa doente.

Espio-te à distância. Sabes que te olho? Talvez, não importa. Não estando arrumado consigo ver-te como alguém que na sua inflexibilidade não me atormenta nem me visita sem que eu lhe abra a porta e verifique os pés intocados e limpos. Não quero pegadas com as quais não saiba lidar, para já os desafios são outros, caro poeta adormecido.

Verteste a água de um copo que levaste para a cama. Quando a memória da tua mãe invade o quarto com chá de limão e torradas cerras os lábios e a água que ela inicialmente derrama sobre a tua boca escorre para os lençóis velhos. As gotas que bebeste no segredo de um silêncio ela não viu.

Grita poeta, grita pessoa. Poeta. Pessoa. Proibida a entrada a memórias estranhas ao serviço. Cala a senhora voz-adoçante que fala na rádio e deixa que os vizinhos chamem a polícia e disquem o número de um manicómio ao compasso da tua dor. Invade-lhes a casa e viola-lhes os sonhos até que te doam as mãos e a garganta ferida só produza a dor que dizes já não procurar. Acredita quando te digo que só agora se vão lembrar que os tinham. Os sonhos. Antes que caiam mortos vai chegar o certificado de demência e a memória da tua mãe com uma moldura barroca. Uma cama num quarto branco e pessoas que falam contigo devagar. Já não és caro. És querido, mas só para que te sintas criança. Estás no local onde convém que não digas a verdade. Ninguém aí é louco e as verdades são um bicho de estimação demasiado repetido. Guarda a lucidez para ti e escreve um livro. Uns meses após a tua morte uma editora piedosa publicará as páginas (uma lápide para que o tempo não corroa a lembrança este grande e querido Poeta). A família que agrediste vai chorar nas câmaras da tvi e com ela chorarão, comovidas, muitas outras.

Entre parêntesis há um país, caro poeta. Mas as maravilhas só são inerentes a partir do momento em que as escolhes.

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