domingo, janeiro 08, 2006

acontece?

Assim que entro queixo-me da música. “Aqui, não tens de pensar”.
Luzes frenéticas riscam os rostos de quem começou agora a dançar. Procuro, em vão, a aniversariante.
Não oiço ninguém, dispo o casaco verde e sou puxada para a pista de dança improvisada. Há um cheiro doce no ar que me desperta um recanto difícil da memória. Os corpos estão frios e descrevem movimentos pouco bonitos, agudos. Sente-se uma tensão colossal nos olhares que param nos corpos de entre todos nós. Há cigarros acesos e copos com cerveja branca nas mãos de quem dança; daqui a umas horas serão como um prolongamento dos braços que se movem atarantados. Para já, o risco de queimar alguém começa a ser superado com a ascensão desgloriosa do braço que detém o tabaco. Os cigarros são lanternas que ofuscam no meio de tamanha escuridão.
Entre o fim de uma música e o início de outra paro ligeiramente e apercebo-me que conheço a maior parte das pessoas que vejo. Só que ali ainda não sei quem são.
À medida que as músicas correm, impacientes e exaltadas, os corpos moldam-se a si mesmos. Começam a conhecer-se ali numa espécie de descoberta sexual. Retiro o gancho preto e pequeno com que prendo o cabelo, pela primeira vez não me importo que esteja sobre os olhos e acompanhe, despenteado, o ritmo da música.
Os movimentos vão evoluindo. Toda a roupa que pudemos tirar jaz nas cadeiras de plástico que se encontram junto a uma parede. Sentem-se pequenas gotas frias junto à cabeça – que prefiro acreditar que são suor – aumentarem até ao momento em que se atinge uma espécie de clímax. Os pés já não tocam o chão; não se dança, só se evita cair. É assim que num passo em falso se escorrega para os abraços de um qualquer alguém a quem só conhecemos as mãos e o suor salgado. Já não vejo quem mais está na sala.

Dançámos durante cinco horas. As pernas estão contraídas e os vidros completamente embaciados. Numa outra dança recolhemos sapatos, camisolas, e casacos. O corpo vai arrefecendo devagar. Nunca um prato de sopa fumegante me soube tão bem.
Um grupo de pessoas que fui conhecendo por lá sai da sala cumplicemente para dar uma volta. Perguntam-me se quero ir com eles mas assim que passo a porta estaco (provavelmente de frio) e decido ficar.
Aos poucos vamo-nos instalando nas alcatifas do chão onde dançámos. No fundo da sala, o grupo recém-chegado ri descontroladamente e manda para o ar que é legal ser feliz. Rimo-nos com eles mas passadas três horas o corpo berra descanso demasiado alto. Nunca suficientemente alto para que o grupo fale mais baixo. A Joana vai buscar água, corta a escuridão com a luz branca do telemóvel e volta feliz. “Têm os olhos cansados. De certeza que daqui a pouco estão a dormir.” Legitimamente a Catarina enganou-se.

Duas horas depois de finalmente adormecermos, somos arrancadas do sono com música techno, nada a fazer.

Quando eu e a Mariana, minutos depois, começamos a limpar o jardim que circunda o recinto e nos abeiramos da erva que circunda as raízes de uma árvore percebemos, enfim, a doçura quente do ar e o desprendimento dos olhares esgazeados.

O rapaz que me abriu a porta enganou-se. Tive muito que pensar.

7 comentários:

conotação disse...

Acontece, acontece e sem ponto de interrogação. Aprende a estar atenta. ;)
@

Meriel disse...

Gostei muito deste teu conto real. Conseguiste em prosa descrever esta noite com uma poesia tão doce e dançante que a tornou bela a onírica.
Quanto ao resto, não vale a pena pensar muito nisso. Aos jovens todos os excessos são permitidos. E, sem saberes, viveste uma viagem, que não sendo tua, te mostrou algo de diferente.
beijos

conteúdo latente disse...

Querida Conotação,
;)@

conteúdo latente disse...

Querida Meriel,
Talvez não haja muito a pensar. Eu pensei e não foi pouco.
Situações como estas vão estando tão próximas do meu dia-a-dia em tantas pessoas... Se calhar estou a dramatizar, mas não consegui não pensar. Quando olhei para o chão nesse dia senti que tinha acordado com água gelada sobre a cara...
beijo azul*

Anónimo disse...

Muitas das melhores experiências da vida acontecem naqueles momentos em que não se pensa. Sei que é um lugar-comum escrever isto, mas é verdade. Porque para pensar já basta o quotidiano, no qual a nossa mente vagueia nas complicações do dia a dia e de vem em quando tira uns minutos de férias para escrever um post ou um comentário.
Espero que no futuro encontres muitas experiências boas, ou simplesmente diferentes como a que descreves, pois são elas que temperam o nosso caminho e a nossa alma. *

Noc

Meriel disse...

Querida CL,
Quando digo para não te preocupares é apenas porque esse tipo de experiências em si, são normalmente inofensivas. Muitos jovens passam pela descoberta de imensas coisas menos convencionais sem que isso lhes seja de todo prejudicial.
É verdade que alguns se perdem e para os quais uma experiência na vida passa a ser uma vida de experiências. Mas, pelo que vi na minha juventude, a maior parte colhe os frutos dessa experiência e segue em frente. Digo em frente, com a sua vida.
Tu como espectadora podes também colher os frutos daquilo a que assististe e tirar conclusões sobre os resultados.
Eu quando jovem era muito temerária, vivi experiências únicas sem as quais não seria quem sou hoje. Algumas foram boas, outras más, mas todas elas me ensinaram algo.
beijocas

conteúdo latente disse...

Eu também acho que estas histórias, e as histórias dos outros, me fazem ir crescendo. E muito.
As minhas vou vivendo o melhor que consigo. E faço por aprender com todas elas.

beijos (: