terça-feira, janeiro 03, 2006

engenho de acaso

Construí casas no limiar dos sonhos desta aldeia.
Ergui paredes quebradiças para que os silêncios fossem violáveis,
Idealizei janelas de vidro transparente na superfície rugosa das paredes permeáveis.
E antes de ter papel e cimento já existiam Casas, luzes e burburinho
Por dentro e por fora das arestas das mesmas casas.

Dancei em redor das portas e oleei-lhes com suor as dobradiças
Toquei com os joelhos a terra lavrada e provei os vermes do chão.
Como uma louca sem casa gritei canções na alvorada dos segredos.

Criei labirintos somente pelo conforto de estar perdida.
Como alguém que escolhe descer de um comboio sóbrio
Quatro estações antes do destino final cantado pela voz descolorida de alguém.

Quando acordo há um lugar alheio no lugar do quarto quente onde me deitei,
Não há cama nem luz nem cor,
Só a janela por abrir e o cheiro doce e fechado que me entontece a verticalidade,
Me traduz o dia num som distante e agudo que não consigo distinguir
Nos escassos momentos do acordar em que a censura é um horizonte de fumo.
Passadas umas horas não vou saber se este momento foi sonho.
Sorrio agora por isso, o prazer desresponsabilizado de saber que não vou ter a certeza se sorria enquanto dormia ou enquanto acordava. Ou até se sorri.

2 comentários:

Francisco disse...

depois de morrer
gostava que um estranho
pudesse olhar a minha vida
e perguntar a quem me conheceu
“-Era maluco?”
e que lhe respondessem sem pudor
“-Um bocadinho.”
sei que algures
uma parte das minhas cinzas
ia esboçar qualquer coisa
como um sorriso.

Barnabé Santiago
20\09\2005

Tão bom que é viver numa realidade nossa. só nossa.

E ainda melhor.. partilha-la com os que gostamos.

*

conteúdo latente disse...

Barnabé Santiago é sublime...

Sabes uma coisa? Cada vez acho que tenho mais sorte por conhecer as pessoas fantásticas que me rodeiam e compreendem o que digo de uma forma tão peculiar. Por ler o que escrevem e por saber levemente quem vão sendo.

Beijo grande*