quarta-feira, janeiro 04, 2006

onde.

A angústia que envolveu os horizontes das estradas imóveis
Desfragmenta-se devagar.
Já não há mãos suadas dentro dos bolsos calados
Nem borboletas na barriga quando te vejo passar.
É um filme a preto e branco (mas nunca a duas só cores)
Que assalta as noites pintadas a lixívia amarelada.


Sorriso conivente.
Nele, só a vontade de rever nas noites frias esse tempo de gaivotas (e ainda, por vezes, saudade.)

3 comentários:

conteúdo latente disse...

"Sei agora que quando chegar de novo o tempo das gaivotas,
O nosso tempo, já há algum tempo, chegou ao fim.
Para as palavras há os amigos afáveis que se esquecem da cerveja,
Para o corpo os bálsamos caseiros,
E para o cieiro há o batom vermelho que até cheira a cereja.
Finalmente sentada no parapeito quente da janela
Vejo um Outubro afável que me deita numa cama onde descanso o olhar.
Como sempre, já não há dias nossos nem aniversários de nada a comemorar.
Ficam sós, numa corda de roupa a secar,
As memórias (agora inconsequentes) de que me vou esquecendo de lembrar.

E se porventura nalgum entardecer decidires voltar no tempo delas,
Sorrio-te cordialmente, peço-te que limpes os pés e pergunto-te se queres entrar."

Meriel disse...

Mais que a saudade e as memórias por vezes doi a felicidade esquecida.
O meu presente sente-se um reflexo da tua escrita.
Lindíssimo! E o teu comentário é ainda mais belo.
beijos

conteúdo latente disse...

Lembrei-me da manhã em que escrevi aquele poema, "gaivotas", nesta noite.
A angústia agora é menor. Mas a memória é um lugar tão presente.
beijo