segunda-feira, janeiro 30, 2006

Setembro

Era Setembro, esse mês de fim de tarde saudosa e perfeita de pormenores atrasados.

Preparaste este entardecer durante tantos caíres de luz... Eram sempre os mesmos gestos, repetidos e gastos na possibilidade certa de se cumprirem.

Ias para o teu quarto infame de fim de corredor (que tantos desejos despertou secretamente nas conversas secas de casa de banho) … Dispunhas primeiro tudo aquilo que compunha essa débil existência constipada sobre a colcha de cetim amarelo da cama. Toda a tua felicidade, ali exposta à porta fechada no confirmar constante e silencioso de ruídos de primeiro andar.
Tomavas banho, quente e saturado dos tremores invisíveis aos olhos da sociedade burguesa que frequentavas alternadamente com a vida. Untavas depois a pele quase seca de cremes que tinhas encontrado nas gavetinhas dos hotéis de fim de mundo.

Vestias um roupão bordado, de seda branca e regavas as raízes com carinho. Tinha-las semeado em frente ao espelho que detinha em si a claridade aguda de uma parede inteira. A moldura de madeira dourada que o envolvia tinha sido trazida do leste da Europa num saco de lona verde, cortada em partes lógicas. Depois, o restaurador encarregou-se de a erguer habilmente. Só quem se procurasse atentamente nas cicatrizes do espelho poderia encontrar nelas o passado derradeiro…

Escovavas o cabelo ainda húmido de vapores de pó de arroz e começavas a encaracolar habilmente as pontas niveladas paralelamente ao horizonte. Ninguém te cortava o cabelo sem empunhar um esquadro e deter uma imagem nítida do horizonte sobre os olhos.

A maquilhagem estava resguardada numa caixa preta, brilhante e nítida. Mascaravas-te da criança que em tempos subira as escadarias que desaguavam nesse egoísmo de palma de mão.
Por fim, era o vestido comprido que quase tapava os sapatos forrados a veludo. Com o decote exagerado e o cor-de-rosa velho na última linha antes do chão.
Nessa tarde enrugada não desfizeste nada disto. Sorriste para espelho, distraída.

Pudesse alguém ver os copos vazios e as ruas moribundas. Pudesse alguém penetrar essas memórias e beijar a ausência de sonhos.
14.09.2005

2 comentários:

PiresF disse...

Gostei imenso desta viagem de recordações.
Uma escrita fluida e sentida.
Creio que irás gostar do meu outro blog que poderás encontrar aqui:
http://www.prahoje.com.br/aruadoscontos/

conteúdo latente disse...

fico contente por teres gostado. Assim que puder visito a tua rua de contos.