quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Diálogo para a memória



A primeira vez que fui à Quinta das Lágrimas, em Coimbra, tinha sete anos. O taxista quis enganar-nos e ir dar uma volta maior que a necessária. Mas o meu primo conhecia bem Coimbra e não deixou.
-Para lá voltamos de autocarro, pode ser?
-Só se me deixares ir de pé!
-Só se não disseres nada à avó.

(Papelaria Pedro e Inês. Pastelaria Inês de Castro. Quiosque de D. Pedro.)

-Quem eram?
- Pedro e Inês?
- Sim.
- Eram um rei e uma rainha com uma história muito comprida.
- Contas? Vá lá, conta!
- Mas vamos andando, não fiques aí parada a olhar. - Agarrou-me a mão para passarmos a estrada e entrarmos na Quinta das Lágrimas. Vou contar-te um resumo. Depois a avó conta-te tudo melhor. Está bem?
- Está.
- Então, tipo, havia um príncipe que se chamava D. Pedro. E mandaram-lhe vir uma noiva de Espanha que era a D. Constança. E ela, para não se sentir sozinha, estás a ver?, trouxe uma amiga especial.
- Como eu e a Cláudia?
- Sim, muito amigas. E essa amiga chamava-se Inês e era muito bonita. Ora, o que aconteceu foi que o D. Pedro se apaixonou por ela mas teve de casar com a D. Constança.
- Porquê?
- Porque o pai queria. Mas daqui a bocado ela já morre, não te preocupes muito.
- Está bem.
- Eles viveram juntos mas o D. Pedro não gostava dela e a D. Constança era muito doentinha. Pronto e quando ela morreu o D. Pedro e a D. Inês começaram a namorar e acho que até tiveram putos e tudo. E vinham muito para esta quinta. Um dia o D. Pedro foi caçar e a D. Inês veio para aqui. Depois vieram uns homens e mataram-na porque diziam que ela era má. Daqui a bocado já vais ver o sangue dela.
- Está num frasquinho?
- Não, está no fundo de uma fonte.
- Com água?!
- Sim.
- Mas como é que o sangue ainda não foi lavado?
- O sangue não desapareceu porque é como o amor deles. Nunca vai acabar. O D. Pedro ficou muito chateado e matou os assassinos. Eram três mas um escapou-se.
Depois mandou as pessoas todas beijarem a mão à D. Inês e coroou-a rainha de Portugal. Fez túmulos muito bonitos e numa posição especial para que quando ele morresse fossem os dois juntos para o céu.
- É triste.
- É, mas agora já não é assim. Vais ver que vais casar só com quem quiseres e vais ter filhos muito bonitos.
- E vão chamar-se Pedro e Inês!
- Não faças isso se não ainda se apaixonam como num livro que eu estou a ler na escola.
- Que livro?
- Depois a avó conta-te. Vês? É esta a fonte.
- Eles amavam-se mesmo, para o sangue não sair.
- Promete que nunca vais fumar.
- Então porque é que tu fumas?
- Porque sou parvo, não digas nada à avó. Vá, jura. Jura que nunca vais fumar e que vais ser tão feliz como a D. Inês de Castro.

3 comentários:

PiresF disse...

Mas esta história é linda e muito bem contada… Fluida e escorreita, lê-se de uma penada com um sorriso nos lábios.
Gostei imenso.
Um abraço.

conteúdo latente disse...

estou.sem.tecla.de.espaço.neste.computador...
esta.deu-me.prazer.escrever.,fez-me.viajar.,ir.buscar.pessoas.lugares.etc.
fico.feliz.por.teres.gostado.

desculpa-me.por.ter.um.erro.no.comentário.no.teu.blog.,repeti.o."ainda"...

um.abraço.(:

conotação disse...

Ui, essa quinta das lágrimas... tristemente bela (como tu me ensinaste). Lembra a chuva que, para acontecer,tem de cair. Carolina! aqui, aqui, viaja também aqui.

@