terça-feira, março 14, 2006

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Encham-me os dedos de sangue
E troquem-me a doçura por fel.
Façam com que motins se agitem como searas
Dêem força às raízes do campo exangue…
Armem-me guerreira de escudo e elmo,
Teçam-me armaduras de águas de prata,
Escureçam o céu de segredos proibidos
E toquem marchas de triunfo absoluto
Quando eu passar.
Façam-me vénias e estendam no chão
Veludo de capas vermelhas para eu pisar.
Não corram como vermes
Para a estufa do inimigo latente
Nem lhe descrevam em melopeias doces
Os acordes antigos do meu chorar fremente.

Falem de Inverno e de cadências de agonia,
E cantem-me vitórias ao ouvido
Para que sem hesitações caminhe altiva
Por entre guilhotinas e machados de horror agudo.
Alimentem aves de rapina em voos mergulhados,
Ensinem-nas a caçar a inteligência dos homens
E a rasgá-la como pedaços de carne que comerão
Enquanto sentem o sangue gorgolejante nas gargantas sedentas.

Este é o tempo em que o céu se cobre de alcatrão,
Se ajoelha como numa prece a um deus desconhecido
E come juntamente com pedras soltas o sangue vertido no chão.
O tempo em que grito guerras e espalho tempestades
Como um saco de sementes roído por ratos
Que deixa cair vestígios do que o compõe pelas vísceras do chão.

Condenem-me a mortes requintas,
Deixem-me pendurada pelos pulsos numa parede de tijolo,
Façam com que a garganta me estale em fissuras secas
Enquanto os meus pés se engelham numa bacia com água e sabão.

Coroem-me depois, numa solene cerimónia
A guerreira mais forte do meu passado.
A que lutou sem perecer,
A que não chorou quando queria chorar,
A que se levantou após cair,
A que não contou a ninguém que os filhos morreram afogados,
A que não relatou os seus pesadelos quando rompeu a manhã,
A valente guerreira que ao vergar-se para receber a medalha
Cai sobre o peso do ouro da glória
E chora agarrada a um dedo que partiu.

Troquem-me a doçura por fel
E estendam no chão veludo vermelho para eu passar.
Toquem trompetes e façam rufar tambores,
Chegou o tempo da guerra e dos dedos transbordantes de veneno,
Dos gritos que trespassam gargantas sem se anunciar
E das pessoas que caiem dobradas sobre os ventres arranhados
Enquanto se arrastam para uma praia na esperança que as feridas sejam curadas pelo sal do mar.

10 comentários:

PiresF disse...

Ólálá… e a veia poética transborda. Caramba menina, isso é que é escrever.

…e adorei o anterior. Sublime.

Mhhhhh… que se passa por aqui? Seja o que for, tá-se bem.

Abração.

conteúdo latente disse...

talvez o ambiente tenha ficado muito esquisito...

mas isto agora com abrações até fica mais animado.
;)

beijinhos

Clarissa disse...

Olarilolé... a primavera invadiu este coração lindo da nossa Conteúdo :)
Nem reconheci esta tua escrita,amiga. Quantas almas lindas guardas dentro de ti...
Mas confesso que gosto mais da tua vertente mais doce e solarenga ( da escrita).
Diz à Mariana para aparecer como bloger, para falar connosco, deve ser uma pessoa muito interessante. Assim podíamos ganhar mais uma amiga por este bairro de blogs :)

barbAs disse...

deixei um beijinho à tua espera... acorda-me quando voltares.

(roído*...)

a realidade não são senão ideias.

Clarissa disse...

E se tornarmos as ideias realidade ?!

Clarissa disse...

Boa noite menina doce e poéica :)

Clarissa disse...

Amiga, vem visitar-me aqui
http://cem-rumos.blogspot.com/

encontrei a alma deste lugar :)
beijo da cor das papoilas

Clarissa disse...

Beijos nas asas das gaivotas :)

P.S. A primavera chegou, amiga ?
Hummm...que bom !!

PiresF disse...

Está quase C.
Não vejo a hora chegar.

n9 disse...

mais belo que um belo poema
é uma vida que revela o poema
e ainda mais belo que isso é viver o poema, sendo este belo