domingo, março 19, 2006

Esquinas

Chema Madoz, sem título


Pouco passa das dez.
Sento-me num dos bancos compridos de madeira que circundam a linha dois. Pouso com cuidado a mochila azul no chão sujo e acendo um cigarro. O céu promete chuva numa melopeia doce e agitada, libertando pequenos lençóis de humidade transparente. Todo o meu corpo geme descompassadamente; devia existir uma corda vinda do céu que pudéssemos puxar, para chover. No mesmo instante em que penso isto uma voz de criança assalta-me a cabeça quando diz: se houvesse uma corda para o céu as pessoas usavam-na para subir e descer, não para pedir chuva…
Olho com alguma tristeza o pedaço de papel escanzelado que me informa do lugar que ocuparei num comboio que ainda não chegou. Confirmo que o fecho da mochila está bem apertado, olho declarações de amor eterno gravadas na madeira escurecida. Apetece-me descalçar os sapatos castanhos (seria tão fácil…!) mas a rispidez de uma senhora de meia-idade que passa cortando a espessura do ar inibe-me.
Pouco passa das dez quando o comboio chega. Imponente, rasgando tudo o pudessem ter posto no seu caminho. Um senhor anuncia alto uma lista de destinos por ordem cronológica. Tão alto e tão depressa que imediatamente se transformam numa mistura de son(o)s estrangeiros para quem ouve.
Deixo sair as pessoas que ainda se encontram dentro do comboio, passo a mão pelos cabelos de uma menina de folhos azuis que parte em direcção à cidade pelas mãos da avó e entro. Percorro dois vagões e encontro o meu lugar perto de uma janela riscada.
O comboio arranca, movido por leis físicas e mecânicas que desconheço, empurrando-me para trás enquanto me devolve à posição inicial. Pouco passa das dez.
- Posso ver o seu bilhete?
Abro o livro que trago comigo e folheio-o rapidamente. O papel escanzelado está entre a última página e a contracapa.
- Posso?
Estendo o bilhete ao revisor que fura o papel enquanto o analisa, procurando imperfeições.
Está escuro lá fora, mas o céu transformou-se numa solução de veludo. A possibilidade de chover escondeu-se debaixo de uma cama para descansar e procuro a presença de outros passageiros. Só há um rapaz ao longe que dorme tranquilo, despenteado pelos sonhos (será?)
Passa pouco das dez. Fujo para um infinito que sei que acaba numa esquina próxima. Virgínia Woolf diz-me que a seguir da segunda vem a terça, e depois da terça a quarta… Prefiro pensar que assim não é; reaprendi a acreditar nas minhas próprias mentiras. E ao mesmo tempo que o comboio tende para uma cidade distante adormeço embalada pela visão do rapaz despreocupado. Caminha ao longe a voz que deixei fugir num dia escuro da infância, pouco passa das dez.

22 comentários:

Clarissa disse...

Amiga...que se passa contigo ? És clarividente ?!! Viste-me hoje no comboio?! V. Woolf...
Fico louca com estas coincidências...passei o dia a andar de comboio, de sapatos castanhos, de nome Clarissa...tudo para estar com o meu pai.
És uma menina muito linda!!!

Beatriz disse...

espetacolher!
as descrições, a Woolf, o rapaz despenteado por sonhos... tal o sabor melancolico e terno das viagens de comboio que guardo na memoria, embaladas por reflexões e diálogos com crianças interiores semelhantes aos teus..

abraço

Ipslon disse...

tanta poesia para um moemento tao simples...
e repito-me lindo!
hoje sao todos lindos!

PiresF disse...

Muito, muito bonito.

Voltarei para uma nova e melhor leitura.

ashfixia disse...

Muito bom!
Destaco "solução de veludo" e "despenteado pelos sonhos" para dizer que usas poesia nas tuas frases.
Adorei esta viagem desafiante.
Obrigada pelo desafio!

Beijinhos :)

Parrot disse...

Muito bom.

"Fujo para o infinito que acaba numa esquina próxima"

Parabéns

Maite disse...

Cara Conteúdo Latente
Gostei do seu conto, do tom intimista que lhe emprestou.
Mas eu sempre prefiro encarar as viagens de olhos abertos (aliás sou incapaz de adormecer numa viagem) ;)

Boa noite para si :)

P.S. foi um prazer participar neste desafio

PiresF disse...

Querida C.

Que dizer minha amiga… cheguei ao fim do teu conto e queria mais.
A história de tão bem contada devia ter continuação, este conto não se esgota aqui, pelas belas imagens que transmite e pela qualidade que mais uma vez se revela na tua escrita.

Todo ele revela a cada passo imagens que me são familiares, e quando tento analisar as melhores partes não consigo. Comecei por adorar o inicio, aconteceu o mesmo no meio e no fim a rendição, por não querer que ele acabasse.

Este conto vive nas frases que o embalam decididamente e que tanto me agradam e na história.

Obrigada e uma beijoca de parabéns.

Clarissa disse...

Amiga...estou aí pela tua escrita :)

Clarissa disse...

Doce gaivota...vai aqui:
http://tetros.blogspot.com/

Beijocas de nuvens fofas :)

n9 disse...

Quem vive de ilusões
xuxa no dedo das mentiras
traga com cães o prato birras
enquanto observa suas desilusões

Porém quem vive de belas certezas
vive além da enfermidade
desfruta e se regala nas belezas
de ter um Pai que espera na eternidade

Clarissa disse...

Amiga...está tudo bem contigo ?!

Francisco disse...

:) carolina lina lina ina na a. Beijinho

PiresF disse...

Toc... Toc... Toc... Ó da casa... Está alguém?

ThAlEs disse...

Clarissa, Pires e outros.
Acho que a Carolina não tem vindo por causa de não ter Internet ou por não ter tempo. Amanha perguntou-lhe e dou-vos uma resposta mais clara.
Abraços

www.poetandoporthales.blogspot.com

Clarissa disse...

Thales...dá-lhe um beijo nosso e diz-lhe que sentimos a falta dela. Tenho ido ao messenger mas não a tenho encontrado.

Beijocas :)

Clarissa disse...

Amiga...o que aconteceu ao último post ?!

Beijocas doces

conteúdo latente disse...

Querida Clarissa,
Quando parto alguma coisa digo que "se partiu"... Quanto ao último post dir-te-ei que se apagou.

mas deixo-te à mesma os beijinhos de sabor a cereja (e roubo algumas, que eu também adoro.)

beijinho ao Pires, também.

PiresF disse...

Bem... folgo em saber que nada de grave aconteceu.

Beijinho.

Clarissa disse...

Beijocas doces de boa noite :)

David disse...

Linduh o textu.....

Como todox ox que faxes e me fixestes....


Como tu que ex indespenavel para a existencia e subsistência do universo.....

Amei o sabado..... como eu sei que tu amaste......

Nunca te esqueças que existimux....

GMDT....

Your my "da capo"....

hobbes disse...

gostei..muito..
apanho o comboio todas as semanas já senti aquele cheiro, aquela luz, aquelas janelas, aquelas pessoas, tudo tão familiar