quarta-feira, março 01, 2006

Versão II, entrou o futuro pela janela.

Para C.
Levantou-se do chão de pedra fria, procurando o equilíbrio. Leve, caminhou até a uma prateleira do seu quarto, de onde retirou três lombadas. Uma grave, flácida, amarela e outras duas semelhantes, solenes, forradas a veludo carmim. Depois, sobre as lombadas horizontais que sustentava nos braços, colocou muitos envelopes brancos, folhas e uma esferográfica preta.

Deitada de barriga para baixo, adaptando a febre do corpo à do chão, espalhou os materiais por todos os lugares que conseguia alcançar. Sempre trabalhara assim, dispondo de todo o espaço que necessitava para não se sentir afogada. Inclinou ligeiramente as folhas brancas, arrumadas umas por cima das outras. Respirou fundo, sabia que a luz deveria estar mais intensa e proporcionar uma melhor percepção do que fazia, mas o ambiente de penumbra era-lhe uma valsa de movimentos difusos que lhe estimulavam os sentidos.

Durante várias meias-horas contemplou os objectos que a rodeavam. O ar muito quente envolvia-lhe calmamente as pestanas, preenchia-a a sonos estranhos e leves.
Quase de olhos fechados, procurando o equilíbrio de sonho-realidade, destapou finalmente a esferográfica de plástico, ruída na ponta. Com ela anunciou durante muitas páginas o futuro que lhe invadia as manhãs passadas na cama pelos leitos escorregadios da ilusão. Disse sem pudor as grandes odes que um dia alunos de décimo vão analisar minuciosamente nas aulas de Literatura Portuguesa, anunciou com a glória de um anjo que comunica a fiéis os mandamentos do seu Deus os livros que um dia deixarão a pensar pessoas durante noites de angústia, previu capas de volumes para crianças com olhos do tamanho do Mundo.

Envolveu as cartas enquanto os dedos estremeciam, assustados perante mentiras tão perfeitas… Abraçou com saliva a parte posterior dos selos raros que retirou dos álbuns carmim. Anos e anos de procura expostos pelos envelopes brancos, preenchidos a moradas de desconhecidos que sem critério copiou da lista telefónica.

Bêbeda de sono, estonteada por se ter levantado tão rapidamente, pegou num casaco comprido, de largos bolsos. Neles depositou as cartas com cuidado e uma argola enferrujada com quatro chaves. Acendeu um cigarro ainda em casa e saiu. Passados segundos de estar na rua tinha os olhos preenchidos a lágrimas. Sem saber se eram provocadas pelo vento ou pelo peso de tudo o que sabia que não ia conseguir fazer, dirigiu-se ao marco dos correios. Relembrou com angústia as histórias de infância, toda a expectativa que criou em volta dos correios que não entendia.
Dobrando alguns envelopes com as mãos, introduziu atabalhoadamente as cartas no marco como se fosses resmas de publicidade honesta: um pacote de palavras sem sentido a cinquenta cêntimos; é imperdível.

Saboreando os últimos milímetros do cigarro, bateu a porta de casa e num êxtase de lágrimas deitou-se bêbeda de sonhos na certeza latente que quando na manhã seguinte se arrependesse, as cartas já haviam seguido para o infinito.

9 comentários:

Acrónico disse...

Conteúdo!
A primeira versão é muito boa. Directa, sem adjectivação gratuita. Ao contrário do que diz Conotação, flui e transmite na perfeição a encruzilhada temporal que a escritora de cartas está a viver. É pessoal. É como ao passar na rua, já alta noite, se veja para dentro de uma casa despreocupadamente habitada. Mesmo se for ficção a acção e o personagem são muito bem sintetizados.

Esta segunda versão transformou tudo isso num conto linear e um pouco sensaborão.

Gostei muito da primeira, fiquei triste com a segunda.

Um abraço.

conteúdo latente disse...

Compreendo e corroboro inteiramente com o que escreveste. Escrevi o segundo, também para demonstrar isso à Conotação. Mas também porque gosto de escrever estas músicas para dormir; porque é mesmo isso. No primeiro chego ao fim com a angústia da autora, no segundo chego ao fim com o sono da autora...
Tenho ainda imenso a aprender com escritas na 3ª pessoa...

Agradeço sinceramente a tua crítica!
p.s.- tenho tentado comentar o teu blog mas a página desconfigura quando tento fazê-lo...

Um abraço.

Acrónico disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Acrónico disse...

Oi,

Já está resolvido o problema dos comentários.
Obrigado por me avisares.
Critica sempre que quiseres.

Clarissa disse...

Conteúdo... discordo do Acrónico...são textos tão diferentes, apesar de haver entre eles uma continuidade...o primeiro é muito poético,até mesmo de uma beleza infantil,tem a inocência das crianças e dos seus sonhos...este joga com uma outra maturidade...parece escrito pela mesma pessoa...anos depois. Tem um lado triste de quem quer agarrar algo que lhe fugiu...é heróico por essa tentativa de querer sem poder...É mais fácil gostar do primeiro...adoro a beleza triste deste. Encontro-me por aqui.
Acho que deves tentar diferentes formas de escrita pois alcanças diferentes objectivos. Relê-os, primeiro o outro...sai de debaixo do holofote...já viste a maturidade destes dois olhares ?!
Beijocas grandes:)

conteúdo latente disse...

Querida Clarissa,

obrigada pelo teu comentário. Acho o primeiro texto mais de acordo comigo, mais genuino... por outro lado, agrada-me imenso escrever desta forma em que me embalo, em que me sinto menos à vontade, mais caloira. É um terreno onde ainda tento hipótses.

Desta gostei, embora sinta que falhei... Queria uma espécie de fusão entre os dois textos. Nada de dramas, ainda me estou experimentar (imagina as crianças quando descobrem algo novo!)

Beijo Enorme.

conotação disse...

DEpois percebi a outra versão, a inicial... mas adorei esta.*

PiresF disse...

Eu aplaudo todos os caminhos que sirvam para encontrares o teu, aplaudo a coragem de tentares e aplaudo dúvida que te rói. É uma dúvida lixada e necessária, que te faz ir em frente, te faz desbravar o caminho e te faz crescer na escrita.
Eu aplaudo.
Clap, clap, clap!…

Clarissa disse...

Beijo doce de bons sonhos :)