domingo, maio 14, 2006

Parque


A cidade poderia ser só o parque ileso e completo. Tudo nele eram declarações ao futuro. Ficarei sempre contigo. Deixa-me conhecer-te. Odeio-te para sempre. Nos troncos e raízes das árvores, na madeira dos bancos, no metal das mesas do café antigo, na areia do chão. O parque vivia com as pessoas e com os dias.
Era cama para quem não tinha casa, berço para namorados, baloiços para quem deles precisasse, um abraço quente para quem nele procurava companhia.

Ocupava sempre o mesmo banco riscado. Ás vezes deitada, outras sentada, independentemente do clima e da companhia. O parque era-lhe um abismo de recordações perigosas. Passou uma menina loira com uma corda de saltar e uma boneca (também ela de cabelos claros, só escurecidos nas pontas, de tanto tocar o chão). Tudo ia escurecendo. Tornavam-se visíveis as primeiras estrelas no céu… Com este pensamento ascendeu-lhe nas mãos (pinceladas a música) o eco antigo da Cidade Branca. Acompanhando-o, a planura do dia em que pedira aos pais para lhe colarem estrelas de plástico florescente no tecto do quarto. Vira as embalagens numa loja pequena, de montra escura. Não se sentiria, assim, tão sozinha.
Passadas algumas semanas descobriu que, unindo várias estrelas com uma linha imaginária, podia desenhar letras. No dia seguinte ao achado escreveu numa folha de papel de rascunho, a marcador roxo, todas as letras do alfabeto, muito direitinhas. Desta forma, quando se esquecia da “letra-que-vinha-a-seguir” só tinha de acender rapidamente a luz e consultar o papel. Depois apagá-la para que ninguém descobrisse que ainda estava acordada. Achava bonita a ideia de continuar vigilante, ainda que as únicas luzes existentes fossem as estrelas, no tecto.
Acordou, desta vez para olhar à sua volta. Tudo adormecia sem descobrir nada no céu. Apeteceu-lhe saltar à corda com a menina e ser mãe da boneca dela. Mas a menina era só uma memória ténue.
Um dia (e apagou a luz, para morrer até ao dia seguinte raiar), um dia haveria de escrever esta história.

19 comentários:

ThAlEs disse...

Estive aí , tão perto dessa menina.
Hoje vou gastar tanto a palavra que todos os concorrentes merecem ouvir.
Parabens...
Está lindo CL.
*

Bill disse...

Ola...

Nostálgico, palavras bem elaboradas, fiquei encantado com a descrição do banco e de tudo a volta, dá para fechar os olhos e imaginar cada detalhe descrito com tanta perfeição, me apaixonei pelo final, ultima linha me deixou bobo, simplesmente boquiaberto.
Lindo demais, parabéns.

Bjs

:**

Clarissa disse...

Doce menina...as estrelas no quarto, as palavras que se escrevem e os sonhos que se soltam. Tão Tu, que me apetece abraçar-te com força, muita força.
Um beijo azul minha amiga

ashfixia disse...

Essa menina cresce por aí.
Algures no coração roído pela dor de anos a fio, deitados depois ao vento...
Este conto emociona :)
Está lindo e muito, muito profundo... Mas ao mesmo tempo está leve :)

Parabéns!

PiresF disse...

E a doce menina acabou por a escrever.
Lindo! Se pudesse… levavas um abração daqueles…
Mas aí vai ele, virtual e bem apertado.
Voltarei.

Maite disse...

Cara Conteúdo Latente

Muito bonito este seu conto.

As crianças têm sempre uma estratégia na manga feita de muita imaginação.


Boa noite para si

Nina disse...

Embalei-me nas memórias de vida, de saudade...

Embalei-me em minha própria lembrança...

Lindo!

=]

Clarissa disse...

Mais do que as palavras o que te posso deixar é um abraço apertado e o mais azul dos beijos. Uma boa noite doce menina.

Mendes Ferreira disse...

a palavra vigilante....o sonho que se estende....


parabéns...!


(e obrigado pela visita ao outro lado)

bjo.

Parrot disse...

Conteudo Latente

Belo conto e muito bem escrito. Gostei muito.

isobel disse...

Vês como conseguiste (e tão bem!)..

Um beijinho grande.
E uma garrafinha de água, já agora.

PiresF disse...

Bem... depois de ler o último comentário, fica a impressão que terás pensado não conseguir!?
Nem eu nem quem te acompanha há algum tempo, percebe o porquê.
És fundadora deste grupo e, é a quarta vez que nos brindas com uma história maravilhosa. Se dúvidas tens, creio que chegou a altura de acreditares em ti, na imaginação, no saber que tens de contar uma história e na tua sensibilidade.
Este conto é muito bom. Ponto final parágrafo.
Um grande abraço.

tb disse...

Muito bom, excelente!
Afinal os bancos também têm memória....muito bem cuidada a escrita.
Parabéns

conteúdo latente disse...

Thales,
Com a menina tu estás sempre. obrigada por te teres juntado a nós. um beijinho
_________

Bill,
Fico muito feliz por teres gostado. queria criar essa envolvência à volta do banco.
obrigada por também teres participado com um conto maravilhoso.
beijo
_________

Querida Clarissa,
Recebo o teu abraço com alegria. As tuas palavras são sempre atentas. obrigada.

beijo de malmequeres

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Muito obrigada Ashfixia, a sério.

abraço grande

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Maite,

e eu adoro as estratégias, tão lindas, das crianças.
um beijo grande.

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Nina,

ainda bem que te conseguiste embalar.
é tão bom, não é?
um beijo

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Clarissa,

espero que o teu dia tenha sido lindo, cheio de luz.
também eu te mando o meu beijo azul.

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mendes ferreira,

tive imenso prazer em descobrir esse outro lado.
beijinho

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Parrot,

obrigada.
um beijinho.

________


Pires,

eu não sabia que história associar ao banco, (tão bonito!)... foi isso. obrigada pelas tuas palavras sempre atentas e cuidadas. é um prazer escrever contigo, a sério.
espero que tenhas tido um óptimo inicio de semana.
beijo enorme, recebi o teu abraço com alegria.

conteúdo latente disse...

Libelinha,

um golinho de água para ti.
e um beijo grande.
obrigada.

Fernanda disse...

Você fez uma bonita leitura a partir de uma simples imagem.
Suas palavras ainda ecoam dentro de mim...

Beatriz disse...

Aposto que um dia ainda escreveu essa história. E aposto também que ainda hoje precisaria do papel ao lado para saber da "letra que vem a seguir", nesse seu céu de estrelas improvisado que lhe velava as noites, os bocejos, os sono.

diz-lhe, se puderes, que a menina loira teria gosto que saltasse a corda com ela. com toda a certeza.

beijinhos

Ipslon disse...

gosto da cor do blog, este roxo profundo da um toque mt teu
assim como o conto que nem vale a pena comentar. :P
que a menina loira tenha cuidado com a boneca...

conteúdo latente disse...

Fernanda, obrigada.


beatriz, um beijinho enorme.


ipslon,
é, a menina loira, é muito menina...