terça-feira, junho 27, 2006

26 de Junho de 2006


Há um buraco. Tão fundo e tão escuro que nele a luz se perde. Já ninguém nos dá o tempo que perdemos e a palavra “parabéns” só invoca ironia, marchas e grandes odes de ironia. Telefono e já passa das onze, aí da meia-noite. Não importa. Nem sei quantos anos fazes: trinta e sete? Trinta e oito? Estás cada vez mais bonita, ainda que o teu perfume não seja o mesmo da infância e o teu cabelo sempre de uma cor diferente. Sabes perfeitamente que há gente na rua que pára quando passas e que te olha, gulosamente, nos teus saltos altos e vestidos de seda curtos e decotados. És bonita, sim, quando passas. Quando falas e tudo é melodioso, mesmo se não sei o significado de um terço das palavras que utilizas. Depois, há qualquer outra coisa que falha, não sei bem o quê. Talvez uma máscara demasiado curta para te cobrir. E já nem quero em mim o significado das tuas palavras (casmurra!) Só nos há este buraco que tende apressado para o infinito.

Ninguém nos dá o tempo que passou sem nós, nem o dia em que fui para o hospital com uma gastroenterite e tu não estavas ou a tarde de Fevereiro (aí quantos anos tinhas?) em que me curvei assustada sobre a barriga e tu nem no telefone estiveste. Nem sequer a noite do próximo concerto nos vamos dar. E eu também não estive contigo, sei isso.

Estavas feliz, ouvi a tua voz leve de contentamento. Queria ter tido vontade para perguntar como correu o teu dia, quem te telefonou, que presentes recebeste, se pensaste em mim. Mas quando um “Hello?” soou do outro lado, sempre de um outro lado da linha, eu só disse “sou eu”. E não chegou para que tu me identificasses a voz. Talvez nem tu mesma acreditasses que eu fosse ligar, já dois minutos depois das onze, meia-noite aí.
Dúvidas de identidade esclarecidas, ainda que não saibamos quem somos para nós mesmas e uma para a outra. Eu só te queria dar os parabéns, pelo aniversário. E agradeceste, o telefonema e a atenção. Arriscas a pergunta mas não, não quero que me telefones agora. Talvez amanhã, eu só queria que soubesses que eu não me esqueci. Adeus e tecla vermelha. Porque até os beijinhos seriam mentira de ocasião.

Lembro-me de num outro aniversário dizer que éramos totalmente estranhas. Sei que não é assim, agora. Adorar-te-ia se fosse tua aluna, se me sentassem numa sala e tu aparecesses lá com um livro sobre o braço. E estivesses comigo às segundas, quartas e quintas, das 10 às 11h30 a falar de Camões e Florbela Espanca. Quereria conhecer-te, se não te conhecesse já. Talvez me dignasse mesmo a estudar a gramática de quarto ano que ainda não sei, para que não ficasses desapontada. Talvez tudo corresse melhor. Mas não é assim e toda a sala de aula cai também neste vazio inexorável.

Sei que amanhã, quando já não fizeres anos, vai ser tudo igual. Vai haver céu quando abrir a janela, um quarto para arrumar e pessoas que amo, que amo muito. Só mais um texto escrito e os minutos, pouco passava das onze, que escolhi partilhar contigo ao telemóvel na noite anterior.

Parabéns.

3 comentários:

mina disse...

porque toda esta distancia?
entristece um rosto que observa ao longe.

o buraco pode ser grande, profundo,escuro. mas existem tantos meios que podem levar ao fim do poço,basta tentar outra vez.

hoje há vida, amanha não se sabe.
por isso, antes que as coisas mudem, mudamos nós.
e mesmo que nada mude, mudamos nós.
e mesmo que tudo continue igual, fizemos a nossa parte.
e depois, algo muda sempre..
o telefonema, o parabens, as horas..
nada vai ser igual. e pode ser ainda menos igual.
telefona outra vez.

Clarissa disse...

Minha querida...tremi! Ainda tremo!
resta-me dizer que gosto muito de ti, minha doce menina azul. Percebo-te.

PiresF disse...

Mulheres complicadas e que complicam tudo o que pode ser simples.
Abração.