sexta-feira, agosto 11, 2006

Concerto em Dó m
Para dois violinos, viola e violoncelo



1º Andamento: Allegro Moderato


O poeta entrou em coma nas masmorras da cidade.
Entre os homens e os ratos, dorme o poeta
No que pensam ser o prelúdio da saudade.
As algemas que o agrilhoaram às pedras do chão
Caiem inteiras; e pendendo da tábua onde o poeta dorme
Jaz a pele dos pulsos que não permite que o sangue se torne alcatrão.

No que pensam ser o seu leito de agonia,
O poeta incomoda e atormenta em silêncio
A melodia do decorrer das gentes encarvoadas e frias.
Como a uma bailarina cuja beleza foi negada
E condenada à morte na praça da cidade estéril,
O poeta é projectado num leito que tende para as profundezas
E crido num sono sem regressos, sem ecos, vil.

Divagando por planos em que ninguém já crê,
O poeta recusa a morte de pulsos estendidos ao vento da cidade.
O poeta não morre e persiste nas pedras que as crianças atiram às janelas,
O poeta vive nas aves que ninguém vê e sacia a sua sede na mesma água que o invade.

As gentes esqueceram o poeta nas masmorras da cidade.
Cobriram-no de veludo negro e contrataram corvos para cantar no seu funeral.
As gentes enterraram o poeta vivo nas terras de ninguém
E, impiedosas, rezaram pela alma do poeta a um deus que não tem mãe.

Esfarrapado, coberto de terra e dorido pela força dos pés que o esmagaram
O poeta dorme no coma da cidade, contorcido, esquecido, odiado até à morte.
O mesmo poeta que falou do azul esbatido e inesquecível do céu,
Que cantou com as gaivotas das praias desertas e que acreditou em Deus.
O poeta que se recusou a dizer sempre, nunca e que
Descreveu sem lascas como sentia o perfume das rosas por colher.

Chamaram morte ao coma do poeta
E fizeram das metas de cada um as metas do poeta apagado.
Deixaram o poeta nos esgotos da cidade esquecendo, impertinentes,
Que, na cidade que construíram, os esgotos sedentos de vingança,
Viraram as gargantas feridas para o mar que vive sob os poentes.
Deram ao mar o poeta que não ardeu, o poeta que vive latente, o poeta que não pereceu.
E agora, como um fantasma, o poeta acende devagar a luz das mãos e escreve na areia que o poeta não morreu.




2º Andamento: Lento

Há uma colina sempre viva à saída da cidade,
Que se cobre de violetas e lírios para cantar as alvoradas,
Que em cada recanto acolhe baloiços e bonecas esquecidas
E que guarda segredos de meninas loiras nas encostas azuladas.

O vento abranda quando regressa à colina,
E passa longas tardes ao seu colo contando viagens,
Assobiando melodias do tempo das criaturas mágicas
E mostrando à colina as margens escritas dos livros que leu fora das muralhas da cidade.

Para volver à colina, a própria madrugada penteia o cabelo durante longas horas
E recolhe o aroma das amoras para percorrer com ele o corpo cansado.
Veste-se de azul e veneia-a com sons desusados que param os pássaros nos seus voos e maravilham as bonecas esquecidas das meninas da cidade.




3º Andamento: Allegro

Às portas da cidade há uma colina que se agita quando orquestras e orquestras fazem soar os seus tambores.
Os lírios empalidecem e as violetas cobrem o berço do poeta que desperta.
A terra resvala e corre apressada, deixando nascer da colina o berço de madeira clara.
O poeta vem ainda a tempo de deixar no ar palavras,
De se deixar infiltrar nas gentes como pequenas larvas que correm no sangue quase morto dos juízes da cidade.
O poeta regressa do coma em que esperou, do silêncio em que compôs palavras que são espadas aguçadas.
Vem dos mortos com força para matar toda a cidade e tudo o que faz é deixar no ar palavras.
(Chora poeta. Já ninguém te abre as portas, poeta!)
Há violoncelos perdidos nas tristes dissonâncias que a cidade não compreende
(E correm as cortinas quando vêm passar no ar palavras!)
Tudo são gritos e feridas da tua dor. O poeta nasceu no dia em que o calor não nasceu
E há punhais que crescem do chão como violetas. Mesmo que neles deixe os pés o poeta não morre, não se apaga, não perece!
E se por acaso ou por má sorte, se por vontade de Deus ou do destino o poeta não tiver casa,
Haverão masmorras na cidade com chão de pedra e algemas por estrear.
Enquanto houver uma orquestra que grite que o poeta está vivo ele estenderá os pulsos ao vento da cidade, e cairá em comas profundos que julgarão agonia.
O poeta está atento e se raiar a noite adormecerá a cidade para que quando cair o dia
Toda a vil cidade acorde como de um sonho e visite a colina
Para lá deixar segredos e bonecas esquecidas.

5 comentários:

Lord of Erewhon disse...

Está excelente. Tens já uma boa capacidade de te derramar numa estrutura longa e complexa.
Lê o T. S. Eliot.
Dark kiss.

Z disse...

Há poesia no teu concerto!
Há música na tua poesia!
Quem ouve assim deve pensar de uma forma bonita!
Quem pensa assim de certeza que sabe ouvir... os sons que se ouvem e outros que só se sentem!
Gosto desse teu poeta triste, às vezes, amargurado, outras, incompreendido, desejado, chorado, ignorado... tudo aquilo que lhe compete ser e que os outros façam dele!
Faz-me só um favor enquanto eu vou aqui ao próximo post para ser levado para outros conteúdos, mais latentes ou mais explicitos: dá-me, sff, um RV, um BWV, um TWV ou um KV para eu saber se esse teu poeta é real ou se só existe para ti... Dó menor é muito vago... é só triste!
Continua, por favor, não deixes de escrever, de ouvir música assim e de tocar, porque quem consegue pensar assim de certeza que faz música bem, só se tem é de trabalhar muito!
Beijinhos!

conteúdo latente disse...

este poeta, ate agora, existiu so para mim.
talvez dentro de algum tempo ja nao seja assim. felizmente.

um beijinho, obrigada pela tua atencao.

;)

ThAlEs disse...

Fantastico, um dos melhores teus.
Obrigado por estes momentos e perdoa-me esta falta de jeito para comentários.
Um beijinho...

www.sexta-feira-thales.blogspot.com

conteúdo latente disse...

Lord,
Obrigada. E Obrigada pela excelente dica.
Beijinho