domingo, setembro 10, 2006

Eu e ela. Aeroporto, pouco passa das dez, o sol invade o pequeno espaço onde esperamos pelo avião. Ela. Saia de xadrez pelo joelho, pernas cruzadas, um casaco de renda preta, lábios secos e feridos, violoncelo aos pés, não tem mais de dezassete. Parece ainda não ter acordado e, invadida por uma tristeza infinita, acarinha as próprias mãos. Estamos as duas sozinhas, numa pequena sala soalheira. Encaracola o cabelo pelos ombros com os dedos. Talvez conduzida pelos instrumentos mudos, desce sobre a sala uma estranha cumplicidade. Eu. vestido preto e branco abaixo do joelho, unhas curtas e incertas, violino aos pés.

Abre um pequeno fecho, na bolsa que cobre o violoncelo. Nivela as pernas onde deposita uma resma de fotocópias de pontas dobradas, anotadas com números de dedos, sentidos de arco e sinais de afinação. Como a compreendo, secretamente. Tem no colo as seis suites de Bach. Horas de paraíso nas mãos e o violoncelo aos pés. Move os quatro dedos de violoncelista enquanto segue com os olhos as partituras, em fá. Por momentos milimétricos os dedos sustêm-se e soa uma corda solta, aveludada, capaz de encher a sala, e o Sol. Amaldiçoo-o durante uns segundos o violino por não ter mis. Mas tem, tem mis. Só não tem os mis que seriam precisos. E a profundidade ou o abraço. Fico a observá-la na sua concentração impenetrável. O cabelo escorrega-lhe claro para os olhos e usa a mão direita para arrumá-lo. Tão bonita.

Pairam promessas no ar e todos os segundos são os segundos que antecedem expirações e expirações de contentamento. Apetece beber a sala e o Sol. Apetece pedir-lhe que cante ao compasso dos dedos velozes e delicados na voz de doce de contralto. Apetece curar-lhe os lábios e ficar a olhá-la, sentir os tendões a alterar-lhe a superfície das mãos; apetece estender o momento para depois não mais lhe ver o xadrez da saia ou a renda do casaco. Os instantes do nosso encontro são já os da nossa despedida e fico sentada, a vê-la embarcar no mesmo avião onde vou entrar; sussurro do Prelúdio da Primeira Suite a namorar-me os ouvidos. Só três horas.

10 comentários:

Turquesa disse...

Eu, deitada no sofá. O computador, sobre as minhas pernas. Carrego suavemente nas teclas necessárias para construir uma frase bonita. Não consigo.

Ela, talvez sentada, à espera.

Rafaela disse...

Conteúdo,
já algumas vees aqui tinha passado sem que nunca tivesse deixado uma palavra a suster a minha presença, mas este texto, belíssimo, prendeu-me de tal forma que decidi revelar-me. Desculpa a invasão...

Escreves como um sopro, como se todas as partículas se suspendessem ao teu redor quando fechas os olhos, segundos antes de começar a escrever. Os teus textos são lindíssimos, este está fantástico, como se o tempo parasse apenas para que pudesses descrevê-lo. Parabéns.

Um beijo, e um mi...

Z disse...

Ai ai!! Não estás em cima do teu violino, pois não?? deve ser só a caixa!
É verdade, a rafaela resumiu bem... escreves como um sopro! Leve mas poderoso!
Não te preocupes, a flauta também não tem o mi de que estás à procura... tem outras coisas em vez disso, é preciso é descobri-las! Não deixes de tocar as suites só porque te falta um mi!! Olha que a imaginação é uma coisa muito forte e às vezes vale a pena procurar soluções engenhosas!!
Eu tenho as suites transcritas para flauta (se procurares não vão ser difícies de arranjar!), por isso, mesmo que ainda não haja, transcreve-as tu e toca-as... onde quiseres, como mi ou sem ele!

O mi é só uma nota... não é música!

conteúdo latente disse...

Querido Z,
Obrigada pelas palavras. Com esta história toda já 'arranjei arranjador' para as suites (;
Espero que estejas bem e fica traquilo... eu estava sentada e os pés não estavam em cima da caixa, é ilusão de óptica.
Beijo.


Querida Rafaela,
Obrigada por manifestares a tua presença. Não sabes o quanto te fico grata e o quanto sinto que não invadiste nada. Foste só entrando.
Obrigda, também, pelas doces palavras. Vou agora visitar o teu blog.
Um beijinho.

conteúdo latente disse...

Z,
Nem acreditei muito bem. quando abri a minha caixa de correio electrónico tinha lá as suites para violino. :')
Há pessoas que sabem fazer magia.

Lord of Erewhon disse...

Tu, de facto, és muito especial!

P. S. E tens uns pezinhos de menina e tudo... e eu a pensar que tinhas pés de gnomo! :)=

Dark kiss.

baGa disse...

sim!!!! deste-me a resposta de que andava à procura:
vale a pena ser violoncelista (:

Lord of Erewhon disse...

Estamos à espera... de um novo post... ;)

Carolina disse...

baga:
entao ja valeu a pena escrever o texto.
beijinho

lord:
Eu estou a espera... de mim.
beijo.

Z disse...

Carolina... Escreve!
Escreves bem e é uma pena o teu silêncio!
(Mas tá bem, espera lá por ti, mas se não vieres... vai à tua procura!)