quinta-feira, outubro 12, 2006

Rosas

Para dar tenho a borbulha que despertou na testa, lado a lado comigo, como uma rosa.
E tenho a primeira vez que adormeci a ouvir Vivaldi.
Tenho a t-shirt branca, distribuída pela Câmara Municipal, que sujei de sopa na cantina da escola. Para dar tenho as tranças finas no cabelo que se desfazem antes que alguém lhes toque.
Para oferecer tenho as unhas borradas, que estraguei antes de secarem. E também um frasco de acetona. Para dar tenho as horas que passo sem conseguir escrever, ou tocar, ou amar.
Tenho os sapatos de princesa cobertos de lama, os collants rasgados acima do joelho.
Tenho todos os indícios de perfeição. E as lágrimas rasgadas.
A Carolina que tropeça na rua, numa pedra que se distingue da planura do chão. E a outra, também.
Para dar tenho os tendões quebrados, esfarrapados pelo chão de asfalto. Perdidos, partidos, espalhados num plano que o coração já não atinge.
Para dar, a menina de cabelo claro que vai ao café e pede chá de limão, que adormece na biblioteca sem querer e a que se veste de preto. E ainda a outra que já não me lembro bem como era. Todas, de todas as maneiras, até as dos compassos por inventar.
A que mata, a que canta, a que esquece, a que não fala.
A lua nova. E o quanto sou eu por ser todas elas. E ser só eu.

4 comentários:

Z disse...

É bom, é mesmo MUITO bom ser assim tantas(os)!
Gosto de te ler!
De músico para música: experimenta um compasso de 3 por 5 (quando o descobrires avisa-me!)
Beijinho!

PS. deixa lá, as borbulhas secam!

conteúdo latente disse...

De produzidora de sons, muitas vezes esquisitos, para músico: estou a pensar seriamente no assunto do 3 por 5.

Eu também. Gosto de te ler e fico feliz por gostares. Dá muita força ouvir isso (:


Beijo.

Rafaela disse...

Doce Conteudo... ainda bem que podes ser-te tantas vezes e de tantas formas, todas tão belas e tão fortes de si mesmas...
Essas meias perfeitamente rasgadas, esses lábios perfeitamente mordidos, esses desastres tão perfeitamente calculados fazem de ti uma princesa perfeita, sem mãos a medir para tantas estrelas...

Um beijo,
adorei ler-te mais uma vez...

Lord of Erewhon disse...

Quem tanta rosa estranha produz, só pode ser roseira brava, ;)
Dark kiss.