sexta-feira, novembro 10, 2006

As pessoas 0 e 2

(A pessoa dois, que até então estava sentada, levanta-se e ausenta-se por uns segundos do palco. Volta com dois folhetos de publicidade, e um envelope branco. Olha para os folhetos de publicidade com desdém, amachuca-os, e deixa que caiam sobre o tapete. Rasga a carta bruscamente de onde retira uma flor seca. Olha muito tempo para ela, sorri, cheira-a, até que por fim a coloca dentro do copo com água. A pessoa 0 entra no ambiente da pessoa 2, falando sempre calmamente.)


Pessoa 0: É só uma flor seca.
Pessoa 2: É a flor seca que alguém decidiu deixar na minha caixa do correio e que eu decidi pôr no meu copo de água.
Pessoa 0: Mas é uma flor seca… É como se estivesse morta.
Pessoa 2: Assim pode ser que volte a viver.
Pessoa 0: Porias um morto numa casa luminosa, arejada e mobilada, esperando que ele voltasse a viver?
Pessoa 2: Porque estás a falar da minha flor como se fosse uma pessoa?
Pessoa 0: Porque te quero fazer pensar no modo como vês as pessoas.
Pessoa 2: Eu tenho consciência do modo como vejo cada pessoa e do modo como vejo a humanidade. Mas não gosto de pensar nisso.
Pessoa 0: Mas o teu inconsciente comanda tanto em ti. Talvez mais até que a tua consciência! Isso não te fascina?
Pessoa 2: Não. Nada. Ou melhor, fascina-me quando tenho só uma vaga ideia de que isso acontece. Não me parece que descobrir o que o meu inconsciente pensa me faça sentir mais feliz. Aliás… É ridículo que tenhas consciência do teu inconsciente.
Pessoa 0: (interrompendo) Pode ajudar-te.
Pessoa 2: Talvez. Mas não quero pensar nisso.

(A pessoa 2 movimenta-se pelo seu espaço, sempre seguida pela pessoa 0 durante algum tempo.)

Pessoa 0: Se deixares a flor seca dentro de água ela vai acabar por apodrecer. Se a deixares dentro do envelope onde veio, ou sobre o chão ela pode viver para sempre, dentro da sua morte.

3 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Muito imaginativo, gostei da estrutura.

Dark kiss.

Z disse...

Nós morremos tanto quanto as flores! Resta saber o que andamos a fazer por cá enquanto não murchamos!

baGa disse...

no meu quarto tenho 2 rosas secas, que me(/nos) deram no encerramento do mus&caldas 2006, numa jarra linda e verde que comprei por 0.99€ e que não tem água...
e as pessoas olham para elas e riem de gozo, "Que sentido faz ter 2 rosas secas numa jarra vazia, como se ainda vivessem?", e eu sorrio de amor e digo baixinho, para mim mesma, que elas vivem enquanto eu olhar para elas todos os dias de manhã e lhes piscar o olho...

as coisas delicadas (sobre)vivem com base no amor que lhes dedicamos. e queres melhor exemplo do que as flores?