terça-feira, novembro 14, 2006

As pessoas 1 e 3

Pessoa 1: (o foco deste ambiente acende) Sei que só compro flores porque já não tenho quem mas dê. Sei-o, sei-o porque o faço há anos. (fixa as flores) E podem parar de olhar para mim assim, já não me sinto mal por isso.
Penso muitas vezes que a pessoa que der lírios a sim mesma, por mais ninguém lhos dar, poderia ser minha amiga. Assim, quando eu fosse ao mercado comprar lírios escolheria os melhores, sabendo que a pessoa faria o mesmo. E depois trocávamos de ramos. Eu oferecia-lhe um a ela, e ela um a mim, todos os domingos, que é o dia do mercado (o foco deste ambiente apaga)

Pessoa 3: (o foco deste ambiente acende) Não me sinto egoísta quando tenho flores em casa. São seres vivos, sabem? Mas não falam, e não se ouvem a respirar, e não andam de um lado para o outro. Aliás, eu só acreditei que as flores bebiam água quando a minha mãe comprou um molho de rosas, um molho enorme de rosas e as pôs num copo alto de plástico transparente. E eu fui lá e marquei com uma caneta de acetato a altura da água no copo. Passados três dias a água tinha descido. E eu achava profundamente que sabia o segredo mais importante do mundo… (com um ligeiro sorriso) A história da minha vida tem sido acreditar que sei os segredos mais importantes do mundo e escolher pessoas a quem os dizer. (o foco deste ambiente apaga)

4 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Isto promete... ;)

Dark kiss.

Z disse...

Escolhe bem as pessoas a quem queres queres dizer esses segredos... é que às vezes eles podem mesmo ser os mais importantes do mundo! Nunca se sabe antes de se contar um segredo!

Rafaela disse...

Lindíssimo...
uma continuação excelente...

Um beijo
adorei, como sempre...

Anónimo disse...

O copo de pé alto exalava um cheiro forte. Cheirava a chocolate. Chocolate quente. Não. Chocolate morno. Dele vinha também uma imagem. Uma imagem gulosa. O televisor fixado bem no alto da parede acordava aquele pequenino mundo com as notícias. Notícias de gente. Lembro-me vagamente. Era qualquer coisa relacionada com a demolição de barracas clandestinas e pessoas que não tinham onde dormir naquela noite. Que importa. Não sei porquê, não faz bem o meu género, eu até gosto de ouvir as notícias, mas naquela manhã não liguei nada à verborreia jornalística do costume. Desliguei completamente. O chocolate quente. Não. Quente não. Morno. Esse sim, prendia-me o olhar. Não me conseguia ver a mim mesmo, mas tenho quase a certeza de que tinha os olhos vidrados nele. Prossegui o gesticular da ocasião. Abri o pacote de açúcar e remexi bem. Pouco a pouco o chocolate ia desaparecendo, desfazia-se no leite com café. Bolinhas sucessivas vinham à superfície e num silêncio mudo rebentavam, desaparecendo também. Todo o meu cérebro estava numa química exaltante. Prazer era o que era. Alguns minutos depois levantei-me, fui ao balcão, paguei a conta e fui à minha vida. Ainda me lembro que quando fechei a porta, ecoavam pela sala as notícias de gente.