sexta-feira, novembro 03, 2006

Quando os olhos já não deixam mais

Biblioteca da escola, pouco passa das três. Decido faltar a uma aula, a uma aula pequenina (que importância terá?) e ir ao núcleo, como no ano passado. Estão lá todos. As duas professoras, os dois amigos, uma sala nova e um computador que se recusa a apanhar a rede.
Sento-me num dos pequenos sofás, já não me lembro se azul ou verde-escuro. Não tenho vontade de fazer com que o computador fale. Queria só sentar-me com eles e falar longamente, rir um pouco, pensar. Viro as costas ao aparelho repetitivo, encosto-me no sofá. Os olhos param em colegas antigos, em dias antigos, em livros antigos. Há tanto tempo que não entrava na biblioteca, que me assusto. Os olhos poisam nas novidades. Passo a Isabel Allende e o manual de já-não-sei-o-quê e tudo em mim cai num terceiro livro de crónicas. Vou buscá-lo e saboreio o ter o livro na mão. Não tenho conseguido ler. Ou escrever. Aparece sempre só mais isto e sem eu dar conta os olhos choram e dizem que não querem mais. Trago-o para casa, mesmo que saiba que vai passar uma semana, e vou ter de o entregar sem o ter lido. Escondo-o muito sóbrio na mochila, quero sentir que o livro é só meu, só para mim, e de repente sou uma criança pequena e envergonhada, a baloiçar nos sapatinhos azuis, de fivela. Terceiro livro de crónicas.
Foi a minha professora de Português do ano passado que me ensinou a gostar de crónicas, mas ela não sabe. Muitas vezes vejo-a passar na escola, com a pasta castanha e gasta na mão e queria dizer-lhe Obrigada. Mas depois só me sai da boca um bom dia triste e choroso como o dia. (Será que ainda sabe quem sou?) Este ano é professora do Gonçalo, da Mariana e da Margarida. Às vezes tenho vontade de lhes dizer que bebam as palavras dela, que aprendam a fazer magia, como ela. Mas depois só me sai da boca que gostava muito dela e o dia continua choroso e triste.
Chego tarde e vencida à cama, o livro paira por aqui. Leio duas crónicas breves, os olhinhos não querem mais e já durmo menos de sete horas. Só mais uma. “À noite, na rua, quando olho uma janela iluminada penso sempre que seria feliz se morasse lá dentro”.
Adormeço o livro ao meu lado, o meu livro, o meu menino. Os Maias eterna e estupidamente adiados gritam infernalmente do outro lado do quarto. Protestam como alguém a quem voltaram, voltam sempre, a roubar a vez. Programo o despertador na esperança infinita de que amanhã cante e não me acorde no seu susto constante. Os olhos cedem. Um dia, quando crescer, quero fazer as pessoas felizes antes de irem dormir.

9 comentários:

ThAlEs disse...

Desculpa não parar de falar de assuntos sem interesse...
Havemos de rir , sim.
Sempre que quiseres...
Beijinho
Gosto muito muito muito de ti...

barbAs disse...

DE cada vez que recebo um beijinho teu vou para a cama com um sorriso e durmo feliz como o menino que sou, sem me lembrar de nada senao do que me faz sorrir. Manda beijinhos a ti mesma. =)
E toma um meu...

Z disse...

Lindo... como sempre (fica para depois um comentário com conteúdo... este é mesmo só latente)

Klatuu o embuçado disse...

Diz a essa Senhora tudo o que guardas dentro de ti... Nunca se recompensa o suficiente os Mestres!

Dark kiss.

isobel disse...

Vem andar de baloiço comigo este fim-de-semana. Por favor?

(tens usado o lápis?)

Beijinho, efémera querida.

conteúdo latente disse...

Querida Libelinha,
Todo o fim de semana para andarmos de baloiço. Para falar, para matar as saudades. Só tens de escolher quando. (:


(ainda não o afiei. Tenho-o sempre comigo para fazer festinhas no veludo roxo enquanto estou nas aulas, por isso, posso dizer que tem estado a ter muito muito uso)

Beijinho Libelinha.
Gosto de ti.

baGa disse...

Olha, sem palavras... O meu grito mudo ecoa na tua direcção... E sem o saberes trocamos olhares de compreensão!

Estás cada vez melhor. Para mim, fazes cada vez mais sentido. Parece que escreves aquilo que eu nao consigo escrever, porque o que quero escrever nao sai, porque nao sei que o quero escrever, porque nao o sinto a fervilhar em mim. Ainda. Até que tu me tiras as palavras do subconsciente e fazes luz na minha cada vez pior iluminada cabecita!

continua assim.
grande beijo*

baGa disse...

e tens de me dar o teu mail!

Rafaela disse...

Conteúdo... Belo...
sim, faz o que Klatuu te disse: tira esse dia chuvoso e triste de dentro de ti...

Adorei...
(vai lá andar de baloiço!)

-Todos os dias, mesmo que não te lembres disso, fazes alguma pessoa feliz antes de adormecer...

Beijo