sábado, dezembro 02, 2006

1º Andamento

Pudesse alguém ter força para partir de vez.
Sair dos seus sítios e das suas pessoas e não ir para sítio algum.
Só desertar, desaparecer. Ah, pudesse alguém partir de vez!
E dizer, só dizer de olhos transparentes e sem mentir:
Eu não vou para sítio nenhum. Nada sustenta os meus passos.
Nada me prende, tudo me prende e por isso vou partir
Sem saber as horas a que o comboio apita a chegada.
E mesmo que não haja comboios nesse sítio algum, hão-de haver os apitos densos de literatura no ar.
Pudesse alguém ter só força para partir de vez
E tomar consciência disso. Partir sabendo o que se deixa, mas nunca catalogando tudo até à exaustão. Sentir cada gota de angústia nos olhos das gentes e tomar a decisão de
Preparar um copo de água que se deixa à cabeceira, mesmo sabendo que na próxima noite não se terá oportunidade de ter sede,
Comprar leite para encher a porta do frigorífico
E fazer a cama com os lençóis gastos que nunca se dão às visitas.

(Pergunto à minha irmã mais nova como é lugar nenhum.
E ela lá pára de adormecer pelo chão do quarto as bonecas todas e pergunta na voz fina como quero eu que ela imagine o que não há.
Pensa. Pensa e espalha pelo chão os teus caracóis escuros,
Ainda falta adormecer a Camomila, e a Lúcia-Lima, e a Tília.
Espero. Conta uma história a cada uma. Adormece a mais nova primeiro e a mais velha no fim.
Vês? A mais velha é como tu, já não precisa de histórias. Então… Um sítio nenhum é quando tu dás um salto na cadeira e percebes que não fazes a mínima ideia do que estiveste a pensar nos últimos minutos.)

Saio do quarto infantil e conheço a casa toda. Nunca teria coragem para partir. Nunca teria coragem para partir. Mas ah! Pudesse alguém partir com ou sem coragem para lugar algum.
Cai chuva lá fora, gota a gota. Quase se percebe que gota cai de cada vez, descompassadamente. E há o eco de uma gota já caída que é berço para a gota que há-de cair.
É assim que não se parte para lugar algum: tomando consciência de tudo o que há à nossa volta.
Olhar as cadeiras da mesa do jantar ainda desarrumadas,
Ver a televisão muda e pequena a um canto da sala que passa imagens apressadas,
Verificar as impressões digitais da pequena nos vidros das portas por ainda não chegar aos puxadores e chorar ao ver todos os desenhos coloridos nas paredes de casa, e os gritos da minha mãe quando pergunta quem as vai limpar e o meu pai que diz, deixa estar, tudo se resolve.


2º Andamento

Uma noite não muito longe da de hoje acordo no meu septuagésimo terceiro aniversário e vou ver pedaços de gente a um museu sensacionalista:
Sapatos de ballet, Camomilas, e Lucia-Limas e Tílias.
Instrumentos de mecânica, frasquinhos de verniz e muitas páginas preenchidas.
Ah! O dia do meu septuagésimo terceiro aniversário. Terei coragem de partir, então?
Ver os pedaços de gente que não são de ninguém e partir lentamente?
Naquele canto do museu há um bilhete de comboio por picar de alguém com o meu nome.
Poderei eu ser essa pessoa, a quem pertenceu um dia um bilhete de comboio que não foi usado?
Saio do museu e há um homem que vende castanhas do outro lado da rua.
O cheiro e o fumo espalham-se pelo ar como uma valsa estranha e densa
E vejo todas as pessoas a dançar em volta do homem pelas mãos e pelas vozes umas das outras.
Se um dia fugir, talvez venda castanhas.



3º Andamento

Acordo e consigo garantir que tudo o que se passou antes do instante em que abri os olhos não se passou comigo.
A cama é outra, a cadeira próxima da janela também.
Fico no pijama de quadrados a ver a rua.
Há um homem que vende castanhas e uma história longa que é só um sonho, ou um conto para crianças,
Há desenhos nas paredes mas não sei quem os fez. As vezes que tentei a mim própria mentir e acordo assim. Hoje.
O quarto vazio que só tem porta para a rua e os relatos numa língua estranha, em dossiers pretos, numa estante ao fundo, de alguém que não conheço.
O Sol tímido de Inverno toca o parapeito da janela com dedadas, mas não alcança o quarto e por isso sento-me no parapeito.
Chegam-me pessoas à cabeça, números, moradas e penso no que fazer com todas elas.
Respiro fundo.
Ah, tivesse alguém coragem para partir de vez, antes do corpo apagar tudo com a ilusão do sonho.
Pudesse alguém fugir sem partidas apitadas e ossos a ranger.
Olho para baixo e na calçada, muitos andares debaixo do parapeito onde estou sentada, há um bilhete de comboio (por picar?) que baila ao compasso da voz do homem das castanhas.
Se alguém perguntar digo que foi um desequilíbrio me levou pela janela.

4 comentários:

azzrael disse...

Era tão bom partir... Deixar para trás tudo o que temos no momento para nos descobrirmos. Iniciar uma aventura, começar do zero.
Lindo*

baGa disse...

tenho essa vontade tantas vezes... ainda hoje fui a sete rios de metro e depois nao me apeteceu voltar para casa... pensei "vou sair na estaçao errada e passear pela cidade". às vezes dá-me vontade de entrar no primeiro comboio para sitio nenhum, sem bagagens nem pesos no coraçao, e partir para longe. mas ha sempre as amarras... um dia corto-as, juro!

consciência disse...

É bom sinal que partir seja difícil.

Z disse...

O que mais me impressiona é que li este texto e ouvi uma sonata, claramente!
Não vou ser condescendente e dizer que achei perfeito, não, não é esse o caso! O primeiro andamento confundiu-me, não percebi a exposição do tema, o desenvolvimento, tive alguma dificuldade em perceber o teu tempo!
Mas o segundo andamento é o Adagio perfeito!! O Último é um Allegro moderato cheio de melancolia!
A forma como citas a tua própria música confere unidade à tua sonata! O princípio é confuso, mas no fim tudo faz sentido (espera, se calhar tenho de ir reler tudo à luz desta nova informação... passa-se muitas vezes isto com a música, sabias?).
Não sei se escreveste a tua sonata assim, a pensar nisto, mas faz parte das boas obras adquirirem sentidos consoante quem as lê! As tuas (e esta em particular) são à prova de (bons) leitores.
Sinceramente, nunca me tinha ocorrido que se pudesse escrever assim, e mais uma vez o teu texto inspira-me para experimentar um novo género. Não o vou fazer agora porque é uma empresa laboriosa, mas podes ter a certeza que fica no meu caderno dos projectos.

Para terminar, deixa-me que te diga que só tens de praticar um bocadinho mais a mexer os dedos (para cima para baixo) e a soprar (mais forte, mais levemente) ou o arco. É que quem escreve assim uma sua própria sonata também consegue ler assim as escritas pelos outros! E esse é o único segredo... do qual já não te falta aprender muito!

Beijinhos