domingo, dezembro 10, 2006

Conto de Natal.

I
01.12.1995

Hoje foi o dia de montar a árvore de Natale. Usámos os lacinhos que o pai e a mãe fizeram para por na árvore de Natale quando não tinham muito dinheiro e eu estava na barriga dela e ela contou que não conseguia apanhar o sabonete quando ele caia na banheira por causa de eu estar na barriga e o pai ia lá dar-lhe para ela continuar a tomar banho. Depois eu escrevi a carta de Natale e pendurei na parede, mas o pai e a mãe ainda não escreveram as deles porque estiveram a trabalhar em papeis. No fim de montarmos a árvore de Natal o pai pegou em mim e eu pus um anjinho no ramo de cima e depois fui chamar a Ana para ver a minha árvore de Natale.
(…)
Amanhã também vamos montar a árvore na escolinha. E também vou montar uma na avó e depois na casa das bonecas (…) Há luzinhas na rua e tudo é muito bonito e tem muitas cores.

II
10.12.2006.

Acorda cedo e não se sente absolutamente ninguém. Sorri estremunhada e senta-se no parapeito da janela, acendendo um cigarro e usando a ideia como cobertor para qualquer rajada de vento forte.Vive numa casa fechada e sem luz, onde o frio dorme todas as noites. Há uma mesa sóbria no centro da casa, alguns quadros ligeiramente tortos na parede e resmas de papel pelo chão e pela mesa. Muitas canetas gastas que ainda não estão no lixo e o barulho do mar salgado no areal, ao longe.
Senta-se tranquila encostada à parede húmida. Campos ao seu lado, gosta de lê-lo nos dias frios. Pegar em angústias novas que encontra ao virar de cada página, alimentando-as até à exaustão. E então, quando pensa já não aguentar mais, levanta-se, vertical, e procura na prateleira velha da sala uma edição antiga da Aparição. Deita-se de costas na madeira e respira as palavras como um fumo denso que lhe corrói o chão até sentir que quase não existe. Por vezes adormece de olhos cansados pela ausência de qualquer luz durante alguns instantes e quando acorda sozinha, no chão, há um gato que mia fora de casa, ao longe, como o mar.
As ideias por estrear crepitam-lhe na cabeça e pedem papel da mesma forma que o corpo pede água. Enquanto estiverem na cabeça serão as melhores do mundo e a coragem é o gato estranho que existe fora da casa e se recusa a dormir com a escritora quase apagada. É nova, tão nova (e que idade, no entanto, terá?)
Antes de dormir vira a página da agenda, recusa perder a noção do tempo. É dia 25 de Dezembro, a data soa-lhe estranhamente familiar por segundos, talvez fosse o aniversário de alguém conhecido. Veste a t-shirt velha com que sempre dorme, fecha completamente o estore e adormece quando algo lhe diz ao ouvido que todas as ideias já foram estreadas.
____________________
Nota:
Este conto participa na 5ª edição dos desafios de criação, em que o ponto de partida, desta vez, é um conto de Natal. Os participantes, que se comprometeram a publicar o seu conto em simultâneo às 21 horas (Portugal) e 17 horas (Brasil) de hoje, são: Ashfixia, Beatriz, Bill, Clarissa, Conteúdo Latente, Espreitador, Ipslon, Isa, Kaotica, Klatuu, Legivel, Luís Teixeira, Maite, Parrot, Pedro Pinto, Rafaela, Rui Semblano, Rui Soares, TB, Teresa Durães e Vanessa.

18 comentários:

ThAlEs disse...

Mais um conto lindissimo.
Ainda dizias tu estar inispirada. =)
Adorei...
*

Teresa Durães disse...

vim li e gostei!

Parrot disse...

conteúdo latente, Parabéns

Dois tempos, a mesma história....e às vezes o Natal nem tem dia.

Boa noite
FEliz Natal

legivel disse...

"... que todas as ideias já foram estreadas."

Não foram; confirmo eu que li este latente texto. Parabéns e um beijinho.

PiresF disse...

Lindo, lindo!

Este conto a dois tempos mostra como diz o legivel que nem todas as ideias foram estreadas.
Também não me lembro.

Grande abraço.

Clarissa disse...

Minha doce menina... as saudades que eu tinha...
Foi bom voltar à tua escrita e entrar no teu mundo. Pouco posso dizer porque sou sempre suspeita... bate mais o meu coração e sangra um pouquinho.
Gosto muito de ti minha menina Azul.

Bill disse...

Ola...

Esse começo foi algo fora do comum... Como olhar pelos óculos e nos ver no passado... Que acabou ficando por lá...

Que escrita, e que idéia tem esse conto, linda demais.

Adorei e concordo também com o legivel.

Beijo, boa noite e otima semana

:*

tb disse...

Belo, belo!
Sim nem todas as ideias foram estreadas. A prová-lo estás tu!
Parabéns.
Bjinhos

Klatuu o embuçado disse...

Penso que dentro de todos nós há um Natal sinónimo exacto de Infância Perdida... também já o tive dentro do meu coração...

Gostei muito do que escreveste!

Dark kiss, menina com Conteúdo.

Maite disse...

Cara Conteúdo Latente

Quando todas as ideias já foram estreadas é altura de as reinventar.
Gostei desta sua Aparição :)

Uma boa noite para si

Kaotica disse...

Olá Conteúdo latente...
na verdade o que o teu conto mostra existir é "conteúdo iminente". Uma presença/ausência infantil, uma solidão povoada de alguém consciente de que afinal somos ninguém. Um conto que faz pensar!
Abraço!

Sílvio Mendes disse...

Muito bom. Rendido.

Vanessa disse...

Prendeste-me da primeira à última linha. A esperança às vezes foge-nos, até no dia de Natal...

Muito bonito.

Beijinhos*

Jose disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Z disse...

Muito bom... como de costume!
Quero ler o teu conto de Natal daqui a 11 anos!
Beijinhos

Beatriz disse...

O ontem e o hoje, como eles são... Lamento que para tantos de entre nós o Natal e o espírito da quadra se percam algures, não me dei bem conta quando.

É uma ideia estreante, entre o que li até agora. E comovente, não aconchegante, mas capaz de despoletar ideias inéditas. E vontade de contrariar as tendências de descrédito. Bonito :)

Anónimo disse...

so cheguei agora...mas ainda bem...


hoje sabe-me melhor....mt.


como um caminho novo.


gostei.


mesmo!!!!!!!!!!!


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Isa. Piano

Rafaela disse...

Isto soou-me estranho... Não sei explicar-te o quão estranho, ou como estranho, mas estranho permanece...

No entanto a beleza das tuas palavras, o miar daquele gato vadio fica no ouvido e na memória... Um texto lindíssimo, Conteúdo, e que ficou aqui, latente, a doer como uma ferida permanentemente aberta...

Parabéns,
beijos de ontem, de hoje, e de amanhã...