quinta-feira, janeiro 11, 2007

Não digo a já ninguém que te procuro quando faz frio.
Que te procuro quando tenho medo de já não saber amar:
Que te procuro quando tenho medo
Que tudo tenha ido embora de mim, num automóvel pequeno
De grandes faróis acessos, sem conta-quilómetros, ou mapas
Adivinhados nas janelas pouco transparentes.
Sem documentos, sem travões, sem almas ou destinos latentes.
Algo que era meu morreu assim, para um automóvel brilhante,
Que todos vêem, mas ninguém sabe para onde vai, correndo sobre a estrada fremente.
Pergunto-me onde estará. Nem os viajantes sabem dele.
(Terá criado asas e levantado do chão?)
Subo escadas.
Fiz o teu funeral durante dias que se repetiram
Em espirais de horas infinitas,
Antes do automóvel brilhante partir.
E faço para sempre o teu funeral, porque quando o fiz
Fi-lo acreditando que o ia fazer sempre.
Agora, só me esqueci de acreditar que tudo foi assim.
Embalei-me nos prelúdios que conheci,
E acreditei, acreditei também, que esses mesmos prelúdios
Jamais teriam fim.
Continuo a subir.
(Independente da chuva e das vozes que puxavam para trás.
Fiz o teu funeral sem que houvesse caixão.
Escavei apenas, numa montanha longínqua perto do mar,
A terra escura de silêncio e beijos, e de mentiras segredadas
Na magia que é ter algo bonito para cantar.
Fiz o teu funeral à luz dos Deuses que inventámos,
Orei durante noites escurecidas pelo peso do mal que nos fizemos
Depois de todas as rosas que nos demos.
Vesti veludo preto que se colou aos joelhos sujos pela terra do chão,
Vesti veludo preto, e cobri-te com ele para que quando voltasse
Não houvesse em mim sinais da tua morte.
Porque não digo a ninguém que és ainda quem procuro,
Quando a noite assustada é a metáfora intima da solidão.)
Desço de novo as escadas para o concreto.
Reconhecerei o automóvel se um dia voltar,
Coberto de lama, amassado, partido e violado?
Haverá algo que me diga que aquele vulto ao longe sou eu a voltar a mim
De máscaras pelo chão?
Não sei que enviei no automóvel brilhante, incólume,
Que parou e apitou três vezes no silêncio de uma noite escura.
O azul? A poesia? As aves? A maresia?
Um dia acordo e tudo é nevoeiro,
Exactamente como no dia anterior.
E sei que o automóvel veio numa noite escura,
Mas não sei qual.
Sei que apitou três vezes, e não sei quando.
Foi só uma altura, a altura em que embarquei para longe,
Tudo quanto conhecia em mim.
E no nevoeiro há alguém estranho,
Que não pode ser mais do que aquilo que se vê.
Porque a criatura que dorme sobre o nevoeiro sem pestanejar.
Não mandou quem era pela estrada,
Acredita só que o fez, numa noite escura, envolta pelo cinzento da calçada.
E não sabe que fazer com o acreditar não saber já quem é.
Por isso dorme, tranquila entre a multidão de fumo e imaginação.
No dia em que acordar não haverão mais funerais,
E a terra dos joelhos será somente
Das vezes em que tropeçou e caiu no chão.
Todos os mortos lhe estão vivos, num lugar proibido,
Onde se entra para encontrar conforto,
Nas memórias quentes, que são dor e solidão.

5 comentários:

z disse...

Voltei...
Sabes que às vezes os epílogos significam apenas que outros prelúdios se aproximam! limpa a terra dos joelhos e continua a tua caminhada (os teus pés hão-de saber onde levar-te).
Beijinhos e tudo de bom!

Clarissa disse...

Minha doce menina... sempre a escrever coisas lindas que me deixam enternecida e um pouco triste.
Gostei desta nova apresentação do blog, eas fotos estão linda.
Um beijo doce :)

Liilavati disse...

Lindo demais...intenso, profundo e cativante...Adorei!

Tó Gomes disse...

Joelhos em veludo preto é o que eu percebo.

Klatuu o embuçado disse...

Belo poema, e não é fácil escrevê-los longos.

Dark kiss.