segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Céu

Um céu agita-se no Céu dourado
Que se desfragmenta sobre as searas de ouro do meu país.

E dele descem todos os deuses de todos os tempos
Que vêm cobrir de terra as mãos.
E neste deserto que é ouro,
Os deuses choram como se não mais tivessem coração
E adormecem esfarrapados na terra sem lençóis
Ou pão.

Um céu dourado cai em lágrimas rasgadas
E escava caminhos entre as raízes
Do meu país esfarrapado,
Feito de ouro e searas e deuses que recusaram
A duração infinita dos dias de calor.
No céu do meu país o Sol vive inteiro
E é em cada minuto a bola de fogo que seca
O ruído das aves no ar.
E o canto velho das mulheres de saias escuras
Que sem saberem viraram os olhos
Para o céu, e são os deuses em ascensão.


No país que habito o Céu é feito de terra velha
Que resvala pouco a pouco, revelando toda a escuridão.

No país que habito inventámos as palavras
Com os sons que ouvimos das palavras do meu país.
Mas as nossas vozes são as dos chacais em ferida,
E há abismos que nos chamam como sereias.
As aves gelam antes de dormir.
E no país que habito os deuses vivem na austeridade de um altar perdido.

2 comentários:

Pedro Pinto disse...

Está lindo como sempre CL.
Muitos Parabens...
Um Beijinho,
*

barbAs disse...

hás-de me dizer que frasquinho de poçao magiaca guardas junto à maquilhagem que não usas que faz as tuas palavras parecam escritas num tempo sem tempo. é como ler algo velho e bom, a cheirar a mofo e flores. e nem sequer pensar que saiu das mãos de uma menina.

beijo grande de quero que estejas bem