quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Tenho uma paixão infinita por pessoas tristes, meu amor. Pela forma como se sentam num banco descolorido de jardim e apertam entre os dedos pálidos um cigarro aceso que bebem pouco a pouco, envoltas no seu fumo esbranquiçado.
Mesmo que não o consiga dizer ou explicar, sei que há em mim uma paixão terrível e profunda por elas. São as olheiras sobre todo o corpo, as olheiras sobre os olhos enormes, atentos ao infinito; é o violoncelista que na ponta de um quarteto de cordas, com cabelos claros, olha o fim da sala, onde só há uma parede branca, quase não sentindo que os dedos se movem na melodia mais bonita, ofuscada pelos gritos de socorro dos violinos, que trepam paredes com as suas garras sujas. Ninguém as vê, todos estão perdidos numa dança brilhante.
As pessoas que se sentam no chão da escola e que observo secretamente pelas vidraças das salas de aula, com um livro aberto sobre o colo, com phones que descem até ao bolso de um casaco escuro.
Procuro estas pessoas, meu amor, em odes de segredos e rituais escondidos. E observo-as, enquanto penso em toda a minha vida como um livro contado na terceira pessoa. Procuro-lhes os olhos com respeito, e procuro-me a mim nos seus gestos, nas roupas escuras.
É uma rapariga, sempre de saia pelo joelho e cabelo pelos ombros que de lábios cerrados passa sozinha (talvez não saiba que passo com ela) e bebe chá de limão num café de artistas e lê Proudhon.
Uma professora de cabelo curto que de olhos maquilhados e voz grave passa pela escola usada e fuma sentada no chão, perto das portas cerradas.
O rapaz de cabelo curto, castanho-escuro, com uma camisola roxa e casaco cinzento que consegue não olhar absolutamente ninguém e se senta durante as noites frias e agitadas nos degraus de mármore que dão para o centro de toda a vida.
Tenho uma paixão infinita por pessoas tristes, por pessoas que defendem o que é difícil, e o que à partida é condenável, por pessoas que lêem aquilo em que não acreditam, mas gostariam, e sorriem perante as anarquias do quotidiano. Pessoas que não têm o raciocínio passado a ferro sobre a cama, direito, explícito, linear, acessível; desculpa-me por tudo. São pessoas que me chamam ainda que não saibam o meu nome como tu, pessoas que me fazem pensar o mais profundamente que consigo e atravessar ruas ermas, ainda que não saibam de cor as palmas das minhas mãos e o meu cabelo sobre o colo. Estou a cair. E escolho não o fazer. Desculpa.

9 comentários:

azzrael disse...

Já a algum tempo que não passeava pelo "mundo" dos blogs... Acho que já te disse uma vez mas vou repetir... adoro a tua escrita, simplesmente linda, cheia de intenção... bem.. adoro.
Desculpa não criticar directamente o texto...
Digo apenas que também sou apaixonada assim...

Klatuu o embuçado disse...

Tu não és normal: ninguém escreve assim na idade das borbulhas! :)=

Muita gente que anda por aí a publicar livros... nunca escreveu duas páginas de prosa assim, limpa, inteligível, verdadeira!

Dark kiss.

barbAs disse...

Tenho saudades tuas.(tenho mais coisas para dizer)
Beijinho

Z disse...

o klatuu e a azzrael resumiram a tua prosa com mestria!,
Eu acrescento: não é preciso aspirar-se a escrever o sentido da vida e a coisa mais maravilhosa alguma vez escrita, se se põe em palavras a vida (que é uma coisa maravilhosa) e a beleza de coisas simples, mesmo que seja a beleza das coisas tristes e sombrias!
Não conheço bem o mundo em que vives, mas a forma como o pintas deixa-me extremamente curioso! É um mundo cinzento (como a cor das letras dos teus posts), mas belo, belo como as palavras em que essas letras se organizam e as frases que elas formam!
Nunca, atenção NUNCA, deixes cair essa beleza porque é uma contribuição ímpar que dás à vida... à existência (à tua, em primeiro lugar, e à de algumas outras pessoas - que te Lêem atentamente - entre as quais tenho o privilégio de me incluir)
Beijinhos!
(vá, vai lá ser feliz! Olha que "a idade das borbulhas" tem MUITAS coisas boas que não podes deixar passar porque depois não voltam!)

conteúdo latente disse...

azzrael,
obrigada pelas tuas palavras e por teres voltado. aqui, podes criticar o que quiseres, e não tens de pedir desculpa por isso.
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klatuu,
deixas-me corada, de olhos no chão, a fazer cócegas nas mãos. obrigada pela tua atenção e cuidado, a sério.

beijo

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bArbas,
nem imaginas as saudades que tenho.
falta pouco, eu sei.
espero, então, por ouvir o resto.
beijo

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Z,
O mundo em que vivemos vai sendo descoberto bocadinho a bocadinho. E no meu, sim, há muitos bocadinhos cinzentos.

Obrigada pelo olhar atento que tens tido, tem sido óptimo poder ter-te por aqui. Espero por Julho para podermos falar mais, e ao vivo. Acho que vai ser giro reencontrarmo-nos.

E a idade das borbulhas... Ui, tantas coisas boas que me tem dado! ;D
beijinho grande.

Frioleiras disse...

a tua poesia,
escorre,
doce e líquida
por quem a lê ...

Clarissa disse...

Lembrei-me de ti e do teu violino...apeteceu-me ouvir-te...
Beijo doce :)

Z disse...

Então está maracado para Julho... numa escola E.B. 2+3 de Sto. Onofre, às Caldas da Raínha, ... qualquer...
Entretanto vai escrevendo que eu também (e lendo-nos reciprocamente)!
Beijinhos

Rafaela disse...

A beleza das tuas palavras fez-me sentir outra vez o meu coração. Anda anestesiado pela falta de tempo, e odeio sentir-me feliz sem saber por onde ando.

Também sou apaixonada pela tristeza. É a tristeza que nos distingue, é a incerteza que nos marca, é a incerteza que nos dá rumos. Mas dói, dói ver nos outros a nossa própria dor, ver o que ela nos faz. E, ainda assim, faz-nos tão bem ser essa dor e essa gente de olhos no chão...

Obrigada por este momento, Conteúdo, ficou guardado aqui, na caixinha dos meus olhos...

beijinhos