quarta-feira, maio 02, 2007

‘Alguns têm na vida um grande sonho
E faltam a esse sonho.
Outros não têm na vida nenhum,
E faltam a esse também. ‘

Soares, livro do desassossego.


Portanto falhei na vida. Falhámos porque acreditámos que falhar na vida era não falhar. Não quisemos viver sem falhar e perdemo-nos, estamos tão perdidos… Quisemos ser abertos ao mundo e dizer que tudo era relativo, quisemos olhar o mundo real e então duvidámos o mundo todo, sem que nada nos prendesse. Onde estamos agora?
Diz-me.
Pusemos angústia em todos os nossos passos, lemos, escrevemos e procurámos os sons que a realidade não nos deu em realidades alternativas. Faltámos aos nossos sonhos. Aos que tivemos e aos que não tivemos. Amámos durante um dia com a intensidade e a experiência de uma vida, mas não amámos. Não amámos porque um dia não é uma vida e porque não soubemos ficar, nem soubemos partir. Soubemos só ir entristecendo juntos. Abandonámos toda a gente durante os minutos amargurados em que fechámos a porta de casa. Tanto que falhámos, vida fora.
Olha para mim, consegues? Fazer de conta que não falhámos?
Falámos sobre política e criticámos os grandes filósofos. Conhecemos escritores importantes, sentámo-nos com sábios em mesas redondas e planeámos o mundo. Quisemos fugir para países distantes, quisemos um bilhete de comboio em volta do Mundo...! Mas não fizemos nada, portanto falhámos. Lembras-te dos nossos poemas de dezassete anos? Só os escrevíamos para nos provarmos que íamos fazer alguma coisa, e mesmo assim sabíamos já que não éramos ninguém. Mas não falávamos disso em voz alta, porque os adultos nos iam dizer: És muito novo para falhar. Podes mudar tudo. Toda a vida está à tua frente. És muito novo. Olhávamos para eles entristecidos, por dizerem o que tinham de dizer. A verdade, e nada mais. Faltávamos já aos nossos sonhos, então. Aos que vivemos e aos que nem tivemos.
Estamos sozinhos. Tão sozinhos que num acto de desespero te fui buscar, para só falar de mim. Desculpa-me. E desculpa-me ter sido tão má.
Devia ter ido ver mais vezes o mar, devia ter passado mais noites a dormir, devia ter-nos feito felizes e dizer a doçura do mundo e da natureza num soneto embainhado.
Vamos parar agora. Estou tão suja e tão rota. Falhámos na vida. Falhámos a vida. Até um dia.

16 comentários:

barbAs disse...

Eu
gosto
tanto
de
ti
que
saber
que
existes
me
chega
para
sorrir.

Beijo

baGa disse...

és fantástica. não há palavras, bastam as tuas*

Vanessa disse...

E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...


J G de Araujo Jorge

Lembrei-me...

Beijinhos*

conteúdo latente disse...

barbas,
deixaste-me em lágrimas. e muito feliz.

beijo, que eu também gosto assim de ti.

Beatriz disse...

Lembraste-me uma das melhores passagens d'Os Maias. É um diálogo entre o protagonista Carlos da Maia e João da Ega.

“– Falhámos a vida, menino!
– Creio que sim… Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação.”

Diz tudo, acho eu. E efectivamente, aos 17 anos, tenho muito medo de falhar a vida. Mas sei que ainda não a falhei. Nem tu. Nem tu. Sintas lá o que sentires neste momento.

Nox disse...

O pensar numa vida falhada é motor para fazer (ou tentar) com que cada momento dela altere o que se perdeu e falhou no caminho.
=)*

Lord of Erewhon disse...

Coisas de menina... a vida continua... e são sempre belas as estrelas no céu, brancas, tão puras.

Dark kiss.

Beatriz disse...

Tens um desafio no meu blog! Assim que puderes, passa por lá! Contamos contigo :)

bjs

b. disse...

falhar na vida acontece tantas e tantas vezes seguidas. há quem diga que se fica mais forte.
eu acho que se fica mais frio...
mas sonhar... se eu não sonhasse já não estaria aqui. e não quero deixar de sonhar. mesmo que possa falhar a esses sonhos.

gostei muito do texto.

**

Z disse...

Tenho que ler-te com mais atenção porque os teus textos merecem sempre! E depois logo comento verdadeiramente!
Entretanto se passares pelo barroquista és capaz de achar interessante o que lá está!
Beijinhos!
(É oficial - sou flautista! e tenho um papel que o prova! :P)

Clarissa disse...

Minha querida menina azul... venho inverter as opiniões desta caixa de comentários... é que eu acho que afirmar que se falhou é a máxima imprescindível para se continuar a viver. A cada dia sinto que falhei,que não dei de mim o suficiente, que de pouco vale escrever ou falar ou gritar pois o mundo avança no mesmo ritmo sem que a minha existência marque a diferença. Depois hiberno, sossegada no meu canto, cansada de palavras e páginas de livros empoeirados... depois acordo e ergo-me de novo, porque a Primavera me obriga a procurar o sol e porque nem todos temos louros cabelos.
Falhamos a cada dia, e ainda assim, continuamos porque desistir é algo que nos é impedido.
Um beijo doce.

P.S. Não me esqueci de ti, apenas hibernei cansada de mim.

Clarissa disse...

Doce Carolina, perdi o acesso à minha caixa de email onde tinha o teu contacto. Por favor escreve-me para clarissa.septimus@gmail.com que tenho saudades de falar contigo fora de caixas de comentários.
beijo doce

Cristina Nobre Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Z disse...

É claro que todos os adultos te dirão que (ainda) não falhaste e que podes mudar tudo todos os dias! Porque todos falharam (falhámos) na mesma medida, e têem (temos) de se (nos) convencer (ou pelo menos tentar) de que na verdade não falharam (falhámos)!
Mas muitos deles (de nós) falharam (falhámos) na mesma medida em que não falharam (falhámos) e olham (olhamos) para os seus (nossos) poemas de dezassete anos com o orgulho de reconhecerem (reconhecermos) que afinal estavam (estavamos) certos na sua (nossa) profetização de que iríam (iríamos) ser exactamente aquilo em que se (nos) tornaram (tornámos).
Se calhar, bem pelo contrário, acertaste em cheio!

-//-

("Lembras-te?", não "Lembraste?" desculpa a implicância, mas tudo o resto é tão perfeito que vale a pena!)

-//-

"(...) procurámos os sons que a realidade não nos deu em realidades alternativas"
Não imagino que possas ter a noção de há quanto tempo eu ando a tentar escrever isto!!! Por isso o meu mais sincero obrigado e um sentimento completamente salutar de inveja e admiração!
Sabes que numa determinada altura do ano quis chamar ao programa do meu exame de flauta "realidades alternativas" (errr, "Alternative Realities" actually). Entretanto abandonei o projecto. Bolas, se ao menos tivesse lido o teu texto duas semanas antes - aliás... quando o escreveste!! Ter-te-ia certamente citado no meu programa e teria dado um tema ao meu exame que acabou por não o ter (a não ser o ter sido um momento muito especial de música e amizade!). Era só tê-lo chamado assim e, sem mudar nada, era o título perfeito!
Faço-o agora, à-posteriori!

Beijinhos e boa escrita!

Anónimo disse...

bela escrita...Mas perdoe-me a ignor�ncia. Queria que algu�m esclarecesse a diferen�a de significados entre "falhar a vida" e "falha na vida"...
obrigada.
:)

Anónimo disse...

Falhámos na vida: Estando vivos, não fizemos nada para que a vida valesse a pena. Os nossos planos não conduziram a acções.

Falhámos a vida: como se falha a uma festa ou uma aula, escolhemos não comparecer na vida. morremos, portanto.