domingo, maio 27, 2007

Beatriz

Imagino que não saibas que fazer com a paixão que em ti há por pessoas que não conheces, Beatriz. E que não saibas também como apagar as lágrimas com que me contas que gostas de pessoas difíceis, de pessoas que te fazem mal, de pessoas que falam pouco mas poderiam cantar a humanidade, pessoas que te lembram o que não queres e nas quais vês o mundo inteiro e limpo, nas quais te vês a ti. Beatriz.
Acaricio-te as mãos e olhas para mim nos teus olhos infectados e densos.
Vou estar sempre sozinha porque só sei amar enquanto não conheço verdadeiramente quem amo. Desejo com tudo o que há em mim os momentos de incerteza em que não sei o que quero de alguém, em que escolho que segredos contar com cuidado. Gosto quando quem amo me diz não sei se te posso ir buscar, não sei se te quero ver, não sei se te devo tocar. Os instantes em que o amor pode ser toda a gente. Tremo quando digo pela primeira vez quero ficar contigo sempre, porque é sempre a primeira vez que o digo.
Gosto de esperar devagar que o mundo se revele. Que me contem segredos de infância e me falem do que não conheço como de um mapa velho para um oitavo continente. Que sussurrem: não quero contar-te por que estou triste. Ficar a olhar em silêncio e imaginar “que pensas de mim, que me queres”, e não saber chegar a nenhuma conclusão que não seja volátil.
Desejo quem não me sabe de cor, quem se perde na minha maquilhagem e espera até ver o fantasma que atrás dela vive.

Quero encontrar-me na rua, um dia, e ficar comigo. Com a pessoa que sou e fugiu. É essa pessoa que procuro em quem quero amar. E sempre que amo ela aparece ao longe para se evaporar quando chego à essência da pessoa que tenho perante mim. Persigo-me e fujo sem saber e com medo do que posso encontrar. Um dia.

Quero ouvir-te dizer: fica comigo sempre. E vai ser sempre a primeira vez que alguém mo diz, para que eu trema por dentro e pense portanto, é isto o amor. Sei amar. Fica comigo para sempre. Fica comigo para sempre.
Mas depois há o dia em que deixas de ter segredos e os teus olhos não são infectados ou densos. São os teus olhos. Mais nada. Há o dia em que te falo dos meus abismos e das minhas máscaras e tu te esticas em bicos dos pés. E quase lá chegaste; mas não chegaste porque eu sou esse sítio onde tu não me soubeste encontrar. E de algum modo pensei que pudesses ser também esse lugar que não sei qual é. Há o dia em que tu só podes ser tu e mais ninguém. Quis ficar contigo sempre e enquanto houve a possibilidade de isso não acontecer. Agora o mundo é nosso e tenho vontade de dormir sobre o peso de tanta segurança e responsabilidade.
Beatriz.
Queria deitar-te no meu colo e garantir-te que tudo vai ficar bem. Mas depois vejo os teus olhos doentes e vermelhos, e sinto com os dedos o corpo que te arrancaste, o corpo que já não tens e decido prolongar-nos num abraço sem palavras, Beatriz.
Queria poder perdoar-te. Por prometeres que não vais partir e todas as tuas relações acabarem em lágrimas. Esqueço-me o quão anestesiada já estás e esqueço-me de pedir que te não lembres, numa fuga impossível de ti, do quanto estás eternamente sozinha. É aí que estão as pessoas que procuras. Na ilusão de que não estão sós. Consegues lá chegar sem que te destruas Beatriz? Consegues lá chegar? Beatriz.

9 comentários:

Z disse...

Ai Beatriz Beatriz... espero que seques as lágrimas e que consigas lá chegar!
Doi!
Custa!
Faz sofrer!
Mas não há nenhuma razão suficientemente forte para a auto-destruição, e o "lá" - seja lá onde esse "lá" for, porque cada pessoa tem o seu - vale sempre mais a pena do que qualquer outro fim... assim tu consigas, assim tu queiras acreditar nisto! Assim tu consigas descobrir em que direcção fica "lá"
Beijinhos C
Beijinhos Beatriz (C... diz à Beatriz que eu mando beijinhos)

Cristina Nobre Soares disse...

Este teu texto é uma corrente de emoções. Muito bonito.

Beatriz disse...

meu deus... ia jurar que nos conhecemos...

barbAs disse...

Eu devia começar a deixar de te ler, mas não consigo. Devia mesmo, para fugir do que tu me mostras, com letras tão banais, letras que eu uso também, mas sem o génio.
Chego no sábado, agente vê-se.
Tenho Saudades.
Beijo

Nox disse...

"Amar é bom se houver, no fundo de um de nós, alguma solidão"...Mas que a solidão não impeça que alguém alcance o lugar que é feito e construido por nós..mas nunca só para nós.
**

Tó Gomes disse...

Para sempre é tão aborrecido...
Gosto mais da minha Beatriz

Bill disse...

Docemente poético, nostálgicas lembranças que me trás suas palavras... Um eu perdido na sombras dos meus passos que fogem...
Simplesmente lindas palavras (=

:*

Luísa disse...

meu amor, que bonito. é talvez das coisas mais bonitas que já li, obrigada :)

Anónimo disse...

Recado

Não há as horas de lágrimas
Quando o telefone toca em silêncio
Ao fundo do corredor.
“Se eu não estiver aqui
Tenta mais tarde, por favor”

Não há mentiras na voz.
Nela há só os fantasmas perdidos
No cheiro a gente dos lençóis.
“Se eu fingir que não estou aqui
Finge que não percebes, por favor”

Não há paz nos olhos sem guerra.
Nos olhos há o querer chegar
Sem partir dos sonhos sujos pela terra.
“Se eu estiver a dormir
Fala em silêncio, por favor”

Não há amor nos lençóis escuros
Com que te cobres devagar,
Nas camas quentes de amor.
“Se eu não estiver em lugar nenhum
Encontra-me, por favor.”