sexta-feira, outubro 19, 2007

2007-2007

“(E se nunca mais te vir? Não quero nunca mais te ver, já estou a morrer de saudades e ainda só passou um mês...)”

Não passou um mês. Mas vai chegar o dia em que passou um mês, e o dia em que passaram muitos meses. Até chegar o dia em que as datas se vão confundir na cabeça com um sorriso de desvalorização. Vai chegar o dia em que nada vai fazer anos. Fazem anos as coisas que doem e as que curam feridas. E a dor e os anti-sépticos duraram muito tempo (durarão para sempre?), por isso não fazem anos.
O passado fica nos textos por acabar, ainda que esteja deitado na sua cova. Nos filmes vêem-se meninas de chapéus de palha, que mandam para as covas uma mão cheia de terra, e lêem um último poema, para dizer adeus. Serei uma dessas meninas, hoje? O dia é frio, e o vento leva-me o chapéu para outras covas. Estou nua. Estou tão nua. Como é que vou olhar sem me sentir nua, e sem sentir que há algo tão a mais ou tão a menos?

(Dorme entre os lençóis de Beatriz uma Crónica-Saudade que nunca foi escrita. E durante todos os dias da semana Beatriz acorda; os cabelos por pentear embrulhados na Crónica que há-de escrever um dia, mas para já não, que o céu parece aguentar-se preso aos pés de um Deus que Beatriz sonha em noites de pesadelos e calafrios. Beatriz transformou a sua saudade num berço de febre onde se deita todas as noites. Embala-se. Saudade. E as ondas vão empurrando os sonhos para terras longínquas onde ninguém chega. Nem sequer em sonhos. Dorme atormentada, Beatriz. Dormiria menos atormentada se entre os lençóis suados de tanto calor não houvesse uma crónica saudade dormente e por escrever? Nem Beatriz sabe e entretanto o céu ainda não caiu, dizem que tudo tem um dia. Tudo tem o dia em que acontece, depois de acontecer o dia e todos os dias antes dele. Beatriz adia os sonhos. Adia a vida e a morte no seu berço de condão. E aniquila todas as horas de sangue e pensamentos a frio, aniquila as forcas que julga ver e não existem. Está tudo tão bem. Beatriz recusa escrever Saudade no papel e olhar a palavra nas suas curvas de tinta cega. Beatriz não quer chorar mais porque sabe que toda ela é feita de papel. Adia, então, a sua solidão e o dia em que se vai desfazer sobre o peso de tantas lágrimas. Dizem-lhe muitas vezes choras de mais. E ela pensa baixinho para que nunca ninguém saiba: se tu soubesses.)

Os dias são daltónicos. Mas tudo está bem, mesmo que não esteja bem. Os filmes dos amigos atentos e longe; as tentativas dos amigos atentos que estão perto para furacões nas minhas palavras, ainda que em mim só haja água para muitas tempestades. É bom ficar na janela só a ver a chuva que mais ninguém pode ver. Escolher estar sozinha, num silêncio de não querer nunca mais ninguém. Ainda que chegue o dia de alguém. Hoje nunca vai chegar ninguém. Há gritos e anestesias no ar e no chão dessa chuva sem fim. Que serão dos próximos tempos? Mesmo que não doire no céu, o Sol doira no céu.

“There will be a day when we meet again, my friend. But not yet... Not yet."

1 comentário:

Joana disse...

Tu percebesMe. :')