domingo, novembro 18, 2007

Como é que se explica, a quem deu tudo, que vale a pena arranjar outro tudo para dar? Como é que se diz que vale a pena correr o risco de ficar sem nada, na esperança de receber em troca um mundo que nunca é de ninguém? Como é que se convence um pássaro atravessado de balas nas asas de que o sentido da sua vida é voar? Como é que se faz para que correr o risco valha a pena, se esse risco é não ter mais asas para voar num lugar de vazios eternos? Como é que se faz para ser feliz quando não se sabe ser feliz e os vazios são eternos porque eternas são as grafias dessas quedas ensaiadas que se repetem todas as noites? O que é que se diz quando essas noites são dar tudo o que não se tem, e estar sempre sem nada… sem nada…? Como se pede a esse pássaro que levante voo, como é que se explica que a salvação seja dar, e que seja essa mesma salvação que crie o eterno dos vazios? Como é que é possível que a solução seja deixar de dar? Que deus é este, cego numa terra de homens de sangue sujo? Como se faz para voar e não pensar que voar é correr sempre o risco de cair e ficar sem nada que se possa dar?

2 comentários:

Corvo Negro disse...

Bem que me pareceu escutar palavras sobre asas e pássaros!

Pessoalmente, não tenho as respostas para essa única pergunta. Posso até delinear perspectivas e desencadear uma pafernália de trilhos ao pensamento... uma coisa que sei é que se pode atingir a salvação pelo conhecimento, desde que se amplie a abertura de espirito.

Parabéns. Escreves muito bem.

tua, ophelia queiroz disse...

Não da mesma maneira que se explica que uma larva, um dia, tenha ganho asas.