domingo, novembro 18, 2007

Fecho a porta de casa,
Quatro voltas ferrugentas
Em mim.
E tu do lado de fora
Levas-me num bolso qualquer
Para longe,
Porque não sabes que estou
Nesse bolso
Desde o momento
Em que não te disse adeus,
Porque não fui capaz
De imaginar a minha vida
Sem ti.
Fecho a porta de casa
E penso que não posso chorar
Porque não tenho motivos
Racionais para chorar.
Desces a escada
Depois de dizermos adeus
Devagar, depois de fecharmos
A porta devagar e não nos vermos
Mais.
Eu deito-me na cama
A tremer de frio.
Oiço a porta do prédio a bater
E um carro a passar
E tu vais embora,
Comigo num bolso que cosi
Sem saberes.
Fico a pensar na tua partida
E nos dez meses que ainda tenho
Nesta cidade tão ferrugenta
Como a fechadura
E como a agulha com que me cosi
Num bolso de ti
Que não existe.
Tenho medo que não voltes,
E tenho medo
Que a minha vida siga
Comigo num bolso de
Alguém que não veio mais
Para não me fazer mal.
Tenho medo que a minha vida siga
Comigo deitada na cama branca
A tremer de algo que digo ser frio
Para não me assustar.
Porque comigo ou sem mim
A minha vida corre lá fora,
E quero apanhá-la
Mas não consigo correr
Porque nessa vida
Não vejo nada
Além desta ausência em pedra.
E não sei se esta pedra se quebra,
Mas sei que vai chegar o dia
Em que não vamos voltar
Porque as nossas vidas seguiram
Por ruas iluminadas de
Uma escuridão diferente.
Que vou fazer de mim
Se me deito sempre
Nesse bolso secreto de ti,
E se nunca sei se esta
Foi a última vez que vieste
Olhar por mim.

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