sexta-feira, novembro 30, 2007

Nos jardins infinitos da minha infância que acabou
Há uma menina de vermelho,
Sentada numa árvore a comer
Cerejas. Tem a roupa suja, mas é bonita
Porque consegue acreditar que vale
A pena acreditar, e nem tem consciência disso.

Nesses jardins infinitos
Há só a ideia de que alguma coisa
Há-de durar sempre…
Ainda que o importante não seja
A duração infinita das cerejas nas mãos.
O importante é só sentir que tê-las nas
Mãos, poderia ser para sempre.

Não sei onde ficaram esses jardins,
Mas sei que nele ficou, sem dar conta,
Uma menina de vermelho que sabia
Acreditar e tinha nódoas de cereja
Na roupa e no corpo.
Passaram muitos anos. Continua viva,
Mas o vermelho é do sangue das guerras
Onde morre. Lembra-se que um dia acreditou,
E estica-se em pontas dos pés,
Mas não consegue ter na palma da mão,
Como teve cerejas, esse dia.

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