sexta-feira, novembro 02, 2007

"Save Our Souls"

Beatriz é um nome que me dói. Não sei como é que a fizeram acreditar que poderia ser alguém, mas sei que durante meses a vi chegar a mim de mãos quentes e abertas. Tinha acabado de aprender a falar e dizia Talvez a solidão tenha acabado para sempre. Não sei como a fizeram ter tanta esperança, porque passei os meus dias a tentar fazê-lo e era impossível.

Que te fizeram Beatriz? (Beatriz não fala com ninguém. Fazê-lo é já abrir uma porta a alguém, e Beatriz quer aprender a estar sozinha outra vez.)

Olho para ela, queria que pudesse sentar-se aqui comigo a ver-se. Está a tapar com madeira todas as janelas da casa onde vive, e tem os dedos infectados com as farpas dessa madeira. Utiliza-a para que mais ninguém volte a fazê-la acreditar que num dia próximo se vai encontrar... Já pregou tantas vezes estas tábuas, e já sabe tão bem o que aí vem que lhe apetece chorar. Guarda os sorrisos forçados para se alguém vier bater à porta da casa onde vive, e um "está tudo bem" ,para improvisar, no bolso da roupa que trás no corpo que já não tem. Queria dizer-lhe não vai ser sempre assim. Mas compreendo que não haja uma única palavra que a salve.

Que te fizeram Beatriz? Que te fizeste? Que guerra te varreu os pés?

O silêncio de Beatriz incomoda. Vejo-a a construir um muro enorme que não vai saber derrubar, por ninguém. Beatriz, tem cuidado. E quando ela me diz que é por ser cuidadosa que constrói esta cortina de ferro à sua volta, tenho vontade de correr, e tentar salvá-la. Mas não posso. Beatriz voltou a acreditar, depois de muitos campos de batalha, que ia ser salva. E não foi, perdeu-se outra vez nos pés do sangue e da guerra. Quem aceitará a responsabilidade de tentar salvar de novo Beatriz? Ninguém. E não importa, porque hoje nem ela própria quer correr o risco de que tentem salvá-la novamente.

1 comentário:

Jaqueline disse...

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Beatriz - Edú Lobo/Chico Buarque (Mário Laginha e Mª João).

Para uma Beatriz.