domingo, fevereiro 24, 2008

Estamos presos por linhas velhas.
Se antes havia o terror da partida,
Hoje há o desejo dela,
Mas não podemos falar disso,
Porque dói saber que não conseguimos.
Dói saber que tu vais ser o próximo morto
Do meu cemitério de ausências,
Dói saber que eu vou tornar-me
Uma nuvem na tua memória,
E que me vou esbater até não saberes
Se aconteci.
Dói saber que não tenho mais espaço
Para mortos no meu cemitério,
E que não tenho dinheiro para comprar
Mais terra… Por isso fico sozinha.
Se morrer, não preciso de campas.
Não quero ter a responsabilidade de deixar
Algo para trás, como uma pedra branca
Na terra escura onde os amigos vão chorar,
Se o sol não tiver secado as lágrimas.
Será que alguém percebe a dor de ter
Mortos sem campa?

Estamos presos por linhas velhas
Que se rompem dia a dia,
Num segredo que já não nos contamos,
Num abraço que soa a falso.
Temos a ideia de que devemos sofrer por amor,
E ainda que isso fosse verdade
Limitamo-nos a sofrer, numa dança ridícula,
Pela morte do amor (mas é só uma palavra).
No dia em que esta morte chegar
Choramos um bocadinho, para não parecer mal,
E seguimos por ruas diferentes,
Sorrindo da nossa liberdade.
Somos tão maus…
Porque podíamos partir, mas fingir lutas
Para salvar um afogado parece
Nobre.
Estamos sozinhos para sempre
Há tempo demais.

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