sábado, março 15, 2008

É estranho que me tenha tornado tão igual a ti.
Estás longe, há muito tempo e eu não sei a que cheira o teu cabelo, nem sei quem és (soubeste-o, algum dia?). Lembro a menina que fui, de catorze ou quinze anos, cabelo castanho, aloirado por causa do Sol, roupa simples, sem maquilhagem. Triste, já, mas ainda a meio de um abismo que contemplei, curiosa. O abismo foste tu. Só que tu partiste, e eu continuei a cair nesse abismo exterior a nós e tão dentro do que sentimos. Foi só um Verão. Terá sido apenas um par de dias que prolongámos sem querer?
É estranho que me tenha tornado como a pessoa que em ti vi, há já alguns anos atrás.
A maquilhagem negra, o cabelo escuro e comprido, o silêncio, a loucura numa espiral de degraus e entropia. Não tenho saudades tuas, talvez porque me tenho a mim, ainda que ande perdida. Às vezes antes de dormir pergunto-me como estarás agora, mas depois não quero saber e adormeço dentro de mim.
Flutuámos sozinhas num abismo único. Tu já lá estavas há muito tempo. Ainda lá estás? Aprendi contigo, porque escolhi o fascínio. Depois, restou-me o ódio, tristeza talvez. Não me lembro se algum dia me prometi nunca ser como tu. Pois bem, estou aqui. Lembro-me de ti quando na mesa redonda todos falam e eu escuto em silêncio. Mas agora os teus olhos não estão lá e a cumplicidade trocada em segundos desapareceu. Que é feito de ti? Ainda és como naquele Verão?
Tenho tanto medo de ti, tenho tanto medo de mim quando me entras no quarto escuro, sentada num sonho estranho. E vejo os teus olhos abertos, duas janelas negras e falsas para o outro lado do mundo. Hoje as pessoas que tenho à minha volta lembram-me quem fui, eu transformei-me na tua memória, às vezes percebo-te, finalmente. Será que eles vão perceber, um dia?
O silêncio onde se diz tudo, o silêncio onde cada um ouve o que quer e precisa, as palavras poucas são metáforas de tudo e não são nada porque são proferidas e profanadas no segundo em que não sabemos o que significam.
Ergui-te um templo onde vivi durante meses de desespero, e o desespero parte porque agora estás aqui e dói, assusta, mas fascina e seduz, porquê é outra história.
É estranho ter chegado ao outro lado do espelho, ao outro lado do teu reflexo e ser tudo tão escuro… Não sei como se sai deste abismo, e agora tu não estás cá para eu poder moldar o que vai acontecer na próxima cena.
É estranho que as nossas vidas se continuem a cruzar, se não te vejo. Merda das coincidências. Será que tens consciência da história completa? De quem esteve na tua vida e está na minha? As paredes parecem cair, o acaso será suficiente para me pôr nesta armadilha?
É estranho. É estranho que não tenhas partido e tenhas partido, e que apareça um poema que te escrevi entre as folhas de um caderno velho. É estranho que te tenha guardado. Que significa isso? É estranho que me tenha tornado igual, quase tão igual, à pessoa que foste. Até onde leva a loucura? A loucura. A loucura.

1 comentário:

Annie disse...

eu não sei como vim aqui parar.
só sei que esta foi das coisas mais estranhas que li nos ultimos tempos. porque é tão a nossa história.

não se deve dizer isto. mas vi-me e vi-nos em cada palavra. em cada frase, em cada coisa que escreveste.



sabes, cheguei a um ponto onde nunca estive.
cheguei aqui, ainda estou para descobrir se é melhor ou pior.
eu caio muito para dentro dos olhos. mas os dela. se pudesse dizer-lhe como caí para dentro dela, como eu era quando tinha quinze anos e catorze. porque até a idade coincide.

e anos mais tarde, estou aqui. vivi uma história que foi mais minha, do que dela. porque tudo se gerou dentro de mim.
os pedaços de tempo transformavam tudo numa história maior.
os encontros nunca foram combinados, aconteceram. como se houvesse uma linha qualquer e por mais que fugisse dela, os meus pés me levassem sempre até ela.

até isso, que fomos, já não somos. e ainda somos dentro de mim.

a realidade que encerrei para mim. e depois me tornei tão igual. tão mais triste.

'eu já era triste antes de ti. mas depois conheci os teus olhos, tristes, nunca os conheci de outra maneira. mas eu ainda tinha um brilho qualquer. e foi isso que te aproximou de mim e foi a tristeza dos teus olhos que me aproximou de ti.'

e depois escrevi tantas histórias, tantos poemas, tantas palavras perdidas em folhas de cadernos.
houve uma noite até, daquelas noites, em que tudo caí. e tu te sentes num abismo cada vez maior, que te puxa para baixo, cada vez mais.
que a única coisa que desejei foi encontrar outra vez esses olhos.


agora, não sei onde estou.
acho que ando a libertar-me da realidade que encerrei dentro de mim. se bem, que a cada passo, sei que nada vai voltar a ser como era.
que eu já não vou voltar a ser como era, de antes.



a loucura, a loucura...