quinta-feira, maio 15, 2008

OMPDA - II Partidas

Janeiro de 1990
Nasci de olhos fechados, sem um
Único sonho ou bater de asas
Em mim.
Lá fora o frio batia à janela
Intermitente,
E quando a abri fui por essa noite
Escura, sem saber porquê.

Quando abri pela primeira vez os olhos
Eu já tinha ido, seguraram-me
Contra o peito, mas no meu
Batia um coração sem gente.

Maio de 1998
Era uma casa que eram duas,
E os brinquedos de um quarto
Que eram dois.
E eu que me achava uma só
Percebi pela primeira vez
Que tinha de ser duas,
Ainda que não quisesse assim.
Agora sou muita gente,
E ninguém me é a mim.
Nenhuma dessas pessoas pergunta já
Como teria sido,
Se não tivesse sido assim.

Agosto de 2000

Dois beijinhos rápidos
Que um abraço podia parecer
Muito.
Deixaste-me ficar
Quando a minha vida ainda
Era tua.
Agora que é minha, talvez um dia possamos
Ser algo como amigas,
Porque mais, pode parecer muito.

Março de 2002
Eu pedi-te que fosses para
Perceber se estavas pronto
Para ficar, mas tu foste
E eu aprendi o silêncio.

Agosto de 2002
Será que conta o amor de faz-de-conta?
Os amigos imaginados,
Desenhados, descritos até
Não poder ser mais.
Criamos gente que nos salva e nos mata,
E eu tive de te deixar ir
Para não morrer de novo.
Ensinaste-me que o imaginado é tão real
Como o real, até ser só imaginação.
Até ser só a memória de ter em quem adormecer
Quando se volta a casa molhado.


Junho de 2003
A vida teria sido simples
Se tivéssemos erguido a nossa casa
À beira mar.
As janelas abertas sobre a maresia,
As crianças a entrar dentro de
Casa a correr,
A roupa passada a ferro no roupeiro,
A loiça de porcelana lavada nos armários,
Os cortinados brancos bordados
A esconder o nosso amor
De quem passa.
Como a vida teria sido simples
Se tivéssemos ficado nos nossos braços,
Se eu tivesse ficado nessa casa imaginária
Onde era bom esperar no anonimato
Que voltasses do mundo onde toda a gente
Sabe o teu nome.
Um dia, num laboratório à noite, vais salvar o mundo.
Ter-me-ias salvo… Não fosse
O abismo a chamar do fundo da falésia da nossa casa.

Setembro de 2003
Cidade branca do fundo
Dos meus olhos fundos.
O carro velho na estrada
Para uma vida nova.
Mas como é que a vida é nova
Quando se fica para trás?
Ao fundo as guitarras, um
Acorde sempre após o outro.

Setembro, o mês da luz perfeita
Sobre os campos roxos.
Soubesses as vezes que dormi
Nas calçadas dessas ruas ermas
Só porque era bom estar em casa.

Junho de 2005
Conhecer o abismo
E cair nele como quem paira
Num buraco sem fundo.
A poesia e os fantasmas
Estonteantes, a loucura.
Parece que foste há uma eternidade
Atrás, Mas ainda és essa partida
E essa eternidade.
A vida começava a acabar
E parecia começar simultaneamente.
O mistério eterno dos teus olhos
Repetidos e a ironia de três anos
Passados eu estar exactamente no
Mesmo lugar onde um dia
Me deixaste.

Junho de 2006
Não houve um único laivo
De ódio por entre os dedos
Das nossas mãos.
Eu tinha de ir, e tu tinhas
De ficar.
Partimos, então.
Guardo junto ao peito o poema
Que escreveste
Para curar a minha tristeza
Que não sarou.

Olho para ti, para os teus sonhos
Enormes, e perco-me nesses olhos
Verdes onde flutuo para sempre quando
Cá fora é escuro.

Dezembro de 2006
Dei-te um bilhete para um
Mundo que não era gelo recortado
Em formas perfeitas,
Dei-te as minhas mãos em sangue
E com ele pintaste os sons
Que me sustiveram.
Mas chegámos a lugares
Onde não ser somente triste, não chega.
Precisava que tivesses quebrado
Essas estátuas de gelo em ti
Para seres outra pessoa.
Mas essas estátuas eternas
Não foram, e fomos nós,
Porque no frio de Dezembro
Vimos que escolhemos desde sempre estar vivas e sós
A ceder aos nossos valores
E não estarmos sós para sempre,
Novamente.

Fevereiro de 2007

Demo-nos o mundo inteiro.
Guardo em mim
O teu cheiro, porque foste o único
Que soube encontrar o caminho
De volta a mim e sem ficar,
Encontrar uma maneira de ficar.
Obrigada por tomares conta de mim,
Dia-a-dia.
Temos entre nós um fosso enorme,
E aquilo em que acreditas é aquilo em
Que eu não consigo acreditar,
Ainda que devesse.
Anos passados aprendemos aquilo
Que importa. Importam os braços,
Importam as rosas.
Não há nada em ti que sejam os abutres
Que apenas estão para vasculhar o
Mal que acontece. Não há nada em
Ti que não me esteja a puxar para fora
Do abismo que sou.
E não posso senão dormir descansada em ti.

Junho de 2007
Tenho boas memórias
Dos dias em que nos descobrimos,
Sei que tu também.
Não soube o que fazer
Quando nos vi partir,
E talvez tu também não.
Tenho saudades do autocarro até ti,
Mas perdi-o vezes de mais
E apanhá-lo agora seria só
Ficar triste quando a porta se abrisse
E eu visse que não estavas lá
À minha espera.
Será que alguma noite te sentaste
Nessa estação imaginada e esperaste
Que quando a porta se abrisse
Eu estivesse lá?

Maio de 2008
Penso em ti todos os dias,
E não há nada em mim
Que não sinta a tua ausência.
Não sei metáforas para nos dizer,
E estou cansada, estou tão cansada
De adormecer nesse dia de Outubro
E acordar de novo nele como se
O tempo devorasse o desejo de estar bem.
Fazes-me falta,
Os dias turvam os olhos e não
Sei se é tempo de desistir, mas
Vou desistindo.
Do outro lado da janela a vida segue
De muletas, e vou partir porque um dia
Foste a única razão pela qual ficar.

4 comentários:

Ophelia disse...

Quem me dera não ter percebido e poder dizer só: "Ai, que escreves tão bem!".
Mas não consigo. Não porque não escrevas bem, mas porque percebi.
E dizer isso, não chega.
Não sei o que chegará.

CL disse...

Um beijo muito grande, minha Ophelia. Nunca te esqueças de ser feliz. É isso que chega.

Beijo.

Alguém .. disse...

Fica comigo, por favor.

telma disse...

'E não há nada em mim
Que não sinta a tua ausência.'

esta frase está fantástica. *