segunda-feira, dezembro 29, 2008

Voou

Voar sobre essas redes transparentes que criamos. Conheces a sensação? O vazio absoluto por baixo, e é só deixares-te ir num passo de magia criado nos segredos de um mundo onde a magia não existe. Ser vazio é o que nos mantém a voar, abismo após abismo. Ser gentes infindáveis para não ser nada de uma forma mais completa. Sabes quem sou? Escrevi demasiadas vezes que me mataram. Mataram? Morri? Os dias correm rápidos. Perco-me nas ruas e há sempre uma estação de metro que me leva a casa. Reis esteve nestes mesmos lugares. Penso nele constantemente, o fumo passa-me entre a calma das mãos, são só segredos sempre mais voláteis. Sabes quantas vezes me despedi de ti? Era mesmo a sério. E depois vens, sentas-te aos pés dos meus pesadelos e lá ficas até que sejam só sonhos, até que seja manhã. Os dias passam, os dias passam sempre. Entorno um iogurte e a princesa dos meus pijamas fica suja, fica sempre suja e não há detergente que a lave. Porque continua a ser bonita se a terra lhe escorre pelo pescoço e a cor dos olhos se some numa espiral sem fim. Os caracóis que me fizeram nos cabelos foram durante a noite, e no entanto acordo e tudo são essas espirais adivinhadas que se escondem, se formam na consequência de outra espiral finda e se encontram nos mesmos lugares, nem sempre comuns. Já pensaste no dia do fim? Já pensaste quando forem só lágrimas e desaparecermos de vez das nossas vidas que aparentemente deixarão de existir, mas continuarão noutras ruas? As meninas continuam a saltar a corda, ainda que hoje morrer possa não ser a nossa casa. A Alice no País das Maravilhas perde a maravilha das suas metáforas. Cresceu, para nunca ser menina. Ter tudo é ter a possibilidade de se perder tudo. Espero nessa praia branca, tantos anos depois, que a sombra de um rei se erga ao fundo e salve o império. E espero com a mesma esperança de uma criança pequena que acabou de se sentar. A qualquer segundo vai escapar-se por entre os dedos de carvão, a esperança. É aí que reside o valor de tudo, na possibilidade de tudo ir. Durmo nesse sonho estranho de não pensar nada, estar tudo vazio. Aprendi com os melhores, mesmo que não o suspeites. E agora? Quem consegue imaginar feridas por baixo de uma maquilhagem tão perfeita? Ninguém. Talvez alguém, que afinal de contas não é nada e vale por isso. As metáforas foram, ficaram nessa Terra do Nunca que construímos e destruímos com o mesmo prazer e a mesma fúria. É tudo tão ridiculamente simples que entristeço. As paredes cobrem-se de dores sem fundo e retratos a sépia que vão humedecendo. Já tentaste ver para além dessa placa fina, quase transparente? São filosofias sem filosofia alguma. Uma chávena e os comprimidos ao lado. Escapam os pormenores. Os pés daquela senhora não tocam o chão quando se senta. São as maravilhas da escrita. Mas que importa a escrita? Ser escritor implica uma dose exactamente igual de realidade e sonho, de sanidade e doença. Há muito que a balança se foi. E depois há aquela magia inventada num mundo sem magia que só alguns conseguem. Falhei. Sobreviver implica uma dose excessiva de ilusões, e o talão com o preço a pagar, voou.

3 comentários:

telma disse...

'Ser vazio é o que nos mantém a voar,'

epá, este texto está maravilhoso, mesmo*

Annie disse...

« Ter tudo é ter a possibilidade de se perder tudo. »


(disseste tudo. nada mais me resta para dizer senão: é isto, tão isto.)

Anónimo disse...

Tenho saudades de te ler.