segunda-feira, julho 06, 2009

De resto

De resto só o desencanto.
Nem saudades, nem o susto quando as mãos
Procuram agitadas os cabelos de alguém.
De resto só este desencanto,
Este velho desencanto,
De quem olha para a vida
Como quem vê ilusões correr
Numa televisão que soluça bailes
A preto e branco.

O desencanto,
A certeza de que as pessoas
Que desembarcaram neste porto,
Não desembarcaram. Viram apenas
Uma miragem longínqua da qual fugiram,
Procurando água para não desmaiar.
A palavra a bater no fundo do vazio
Que é ver caravelas que partem sem
Nelas ir, sem chorar pelos que vão ou
Comemorar por quem fica.

Desencanto, angústia quando o sono
Não vem. Quando a loiça cai aos molhos
Dos armários da cozinha durante a noite
E ninguém dá conta.
Quando por entre a loiça crescem rosas
E os pés se perdem nos cacos e nos espinhos
Para alcançar um perfume que evapora antes de sequer
Existir.

Como quem diz apatia, como quem jura
Que tudo o que se passou, não aconteceu.
E a televisão a gaguejar em silêncio,
A atirar balas para os cinco cantos da consciência,
A destruir o que nem existe, deus meu.
Desencanto como quem desce no quinto império
E acorda antes de O encontrar.

Desencanto. Horas a olhar o branco do tecto
Sem nele encontrar um laivo de mar.
Desencanto. O paraíso de não pensar ser
Só mais uma prisão de aço sem cravos.

2 comentários:

Azzrael disse...

Já estava com saudades de te ler! Welcome back!
Que tanto desencanto a vida nos proporciona... Nestes ultimos tempos a vida desencantou-se em mim também. Esperemos que volte sim? Ajuda sempre podermos caminhar com esperança de que algo nos possa voltar a encantar. Contos de fadas? Beijinhos

mãosvazias disse...

este texto foi como se o meu próprio desencanto gritasse muito alto. quebrei a apatia e ela voltará como rosas, perfumes e vazios. não creio na vida e se a dor do nada costuma ser suportável, há dias em que lamento. um lamento seco, porque as lágrimas são da esperança e eu queimei a minha quando me desencantei. há estrofes de muita morte aqui.