quarta-feira, novembro 04, 2009

Coraline

É estranho que os dias corram e que com eles corram as pessoas em bailados sempre demasiado complexos e mascarados. É estranho, gritos e palavras tortas como ramos de flores que se atiram para os braços de toda a gente, ficam as lágrimas no chão de uma casa de banho perdida, porque todos estão demasiado ocupados para parar. É um palco, os actores são os melhores. Integraram tão bem as personagens que têm de ser que se tornaram as próprias personagens. Atrás dessa máscara, só vazio. Ausência. Sabem tudo, mas não sentem. Correm desenfreados de um lado para outro no palco, gritos e palavras tortas para toda a gente porque todos são os mais importantes, os mais promissores, os que fizeram mais, os que gritaram mais, os que têm mais moral. Arranjo coragem para descer deste palco e fico na plateia só, em silêncio, no escuro. Rezo a um deus inventado na altura que transforme a cadeira almofadada em braços que me recolham e, sem perguntar porquê, fiquem de verdade. Que me agarrem com força, não me deixem ir com estas rodas vivas, estes dias sempre tristes e sós, estas noites sempre de corpos, sempre só corpos e mentiras doces, suadas, murmuradas como poesia. Mas olho para trás e a plateia é um vazio incandescente, nem o senhor dos bilhetes para me tocar sem querer e eu sentir que o mundo tinha ficado mais claro. Nem o senhor dos bilhetes. O espectáculo corre, as personagens correm transportando os seus actores, o palco corre, o cenário corre, a música acelera e abranda sem razão. Tremo de frio, mas não há ninguém, só fantasmas. Serão das pessoas que um dia se sentaram a assistir? Fantasmas, gente que não é gente. Personagens, gente que não é gente. E a cadeira contínua imóvel e gelada sob o meu corpo gasto. Não há ninguém aqui: nem um beijo, ou um sorriso, ou uma mão na minha face em ferida. Só gente que não é gente: que corre, que grita, que atira palavras tortas como quem atira migalhas de uma toalha de jantar para a rua. Encolhida na cadeira pergunto-me se será mais triste observar a vida de fora, só na plateia e de lágrimas na cara, ou entrar nela para não ter consciência do quão triste é.

2 comentários:

Débora Silva disse...

http://www.youtube.com/watch?v=uy0HNWto0UY

Tenta acreditar.

Azzrael disse...

quantos na vida conseguem ser reais e não apenas a mascara que carregam? Mais facil fingir...