quarta-feira, dezembro 16, 2009

Catarina

Queria ter-me inventado para te salvar, ou inventar-te um deus, como um dia me inventas-te: Leonor. Chocolate quente no café, e um nome tão bonito: Leonor. Leonor porque Beatriz é triste. E quando a Beatriz passava em jeitos de ficar tu dizias Leonor, e ela ficava em silêncio. Queria ter-te inventado um nome que tivesses lembrado antes de ires, porque é que o mar te chamou mais alto do que eu?

Queria ter-te pedido que ficasses mais um dia, e ter partilhado contigo precipícios tão magoados mas tão menos reais que aqueles que escolheste. Queria ter-te ouvido dizer mais uma vez: Leonor. Para não ser tão cinzento quando me deito sozinha e a tua ausência se transforma numa presença assombrada, latente, visual, incandescente.

Queria que nos tivéssemos sentado no pátio mais uma vez, porque se houvesse essa vez haveriam muitas mais, eu sei. Queria mais um abraço, ou uma fotografia, ou o teu cachecol de poemas bordados. Queria que nos tivesses dado a tua tristeza mais uma vez, nós tomávamos conta dela por ti, para ela não te fazer mal.

Queria que não tivesses ido para lugar nenhum, queria saber-te melhor, mas simplesmente não sei. Não sabemos. Não sabemos nada. Nem se o teu último suspiro te cantou ao ouvido o chocolate quente do nome: Leonor. Não sabemos que forças te fizeram correr. Nem sequer se te lembraste que podias dormir em nós, até tudo passar.

Queria que não fosse uma data. Queria que não fossem lágrimas e trajes negros. Queria que fosses tu. Só isso. Mas tanto. Queria ouvir-te dizer uma vez mais: Leonor. Queria agarrar-te. Mas foste. Quem me vai chamar agora Leonor? E a ti, quem te vai embalar?

1 comentário:

joana t. disse...

acrediro que sempre que precisares vais ouvir a voz dela a chamar "Leonor". Porque ela vai estar para sempre naquele pátio connosco a esticar todas as piadas.

minha princesa.