segunda-feira, janeiro 18, 2010

Let me go home

Há um gatinho preto na janela da cozinha que lambe as patas enquanto olha o Sol pôr-se no horizonte. A loiça branca está arrumada nos armários, lavada à hora do almoço entre brincadeiras de atirar água e espuma. É uma casa bonita. Não é grande, mas é nossa, e sabe bem assim. É num terceiro andar de uma das ruas da baixa, e quando saímos para passear acenamos ao Fernando Pessoa; digo, no fundo, adeus ao que seria a minha vida se não tivéssemos a nossa casinha, e o nosso gato, e os nossos filmes antes de ir dormir. A angústia, a solidão, o achar que toda a gente foi embora, e que falhei todos os meus sonhos. E ainda que tudo isto vá eternamente continuar a bater-me nos quatro cantos do coração, e me atormente de quando a quando, as noites, não vou voltar a adormecer a chorar, nem com frio, nem a não dormir. Porque temos a nossa casinha, e o nosso gato, e os nossos filmes antes de dormir. E vamos passear até ao rio, visitar museus, ir ver concertos ao CCB, rir de mãos dadas nas ruas que vão fazer parte do nosso mapa interno e nunca voltar para casa perdidos. E vamos ter discussões enormes, eu preocupada com as pessoas e com os processos internos, e tu preocupado com o mundo e o seu correr atribulado. E eu vou irritar-me tanto contigo, porque vais querer ir dormir cedo e eu vou ficar as noites todas acordada. Depois fica tudo bem, como fica sempre. Vais ensinar-me a jogar poker, e xadrez, e vais gozar tanto comigo, estou mesmo a ver. Vais fazer-me ouvir as músicas que me mandaste e eu não ouvi por teimosia, e vou gostar. E talvez até deixemos post-its espalhados pela casa, com recados, recadinhos, coisas sem importância de quem sabe ser feliz com pouco por não estar habituado a muito. E talvez sejamos mesmo felizes, e eu não arranje problemas, inconveniências, contradições, preconceitos, desculpas e amarguras ao virar de cada esquina para não ser feliz. Mas sempre foi assim. Vibro deitada na cama, a imaginar como seria se eu agora abrisse a porta sempre fechada do meu quarto e tu estivesses ali sentado no sofá, com um chá para mim. E vai ser só assim. Eu desesperada porque fui para o mestrado errado, a sussurrar-te coisas em francês pela nossa casa fora, e tu pronto para conquistar o mundo. Talvez um dia te conte a história da minha vida, as partes que tu não sabes. Gostava de não ter muitos segredos para ti, como tenho em relação à maioria das pessoas.
Vejo a nossa casinha toda. As divisões, as cores, a mobília, a decoração, a porta da rua. Vejo tudo. E perco-me a pensar se o sofá deveria estar de costas ou de lado para a janela da sala, perco horas porque sonho acordada, vivo alheada do mundo com tantos sonhos, tantos projectos para falhar que tenho. E talvez daqui a dois anos, quando isto estivesse para acontecer, eu já tenha estragado a minha vida toda, e tu já tenhas ido embora. Então eu vou olhar para a nossa casinha, suja e descuidada, e sentar-me a chorar no chão. Porque sei, como quem sabe que dois e dois são quatro, que são só sonhos, só desculpas para pensar em coisas bonitas. E se eu posso sonhar com uma casa arrumada, luminosa, bonita, connosco lá, porque é que hei-de pensar que essa casa nunca há-de existir? Sim, para não me magoar, para não ter a ilusão, a expectativa. Mas posso viver triste e magoada por não arriscar, ou ser feliz até me magoar novamente, por isso hoje permito-me sonhar um bocadinho. Enrolar-me nos lençóis, ouvir músicas parvas, e sonhar acordada. Suponho que às vezes me aches completamente louca, que mudo consoante o vento. Mas não faz mal. Hoje nada faz mal, porque me apetece ficar mais um bocadinho na cama, a sonhar com o que não vai acontecer e ser, ainda assim, feliz. Só feliz.
Terra de paz e sonhos
Onde sabe bem voltar
Quando o mundo lá fora é frio.
Lugar onde sabe bem ficar, para sempre,
Como que sentados a uma lareira velha,
A ver filmes de rir e chorar
Como quem inventa vidas
Sempre demasiado complexas
Para serem encaixadas num poema
Sem poeta.
Terra sem balas escondidas,
Semeada a papoilas que
Não são o sangue escondido
Numa metáfora bonita:
São apenas flores…
E porque são só flores são assim:
Somente bonitas e simples,
Como as tardes a rir, a sorrir,
A brincar, a dizer disparates
Como quem pensa que conhece
De cor o mundo inteiro.
Não conhecemos.
Faz de conta, faz de conta
Que o mundo é esse lugar
Que és, onde sabe bem existir
Sem procurar sentidos e caminhos.
Cavaleiro andante, das minhas
Canções de embalar onde sabe bem
Adormecer de mãos dadas todas as noites.

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