sábado, julho 31, 2010

Baloiços

Quero morrer nas cordas
Dos baloiços da minha infância:
Sempre pendurados em cerejeiras
Sem flores ou frutos.
E quero morrer com o vestido
Sujo de cerejas,
E as mãos a cheirar
A terra molhada.
Quero morrer com os bolsos cheios
De formigas
E os lábios rubros, semi-abertos
Pelo vento que zumbe
Contra os sinos de uma igreja
Desconhecida e branca.
Não quero morrer sem que
Veja voltar ao ninho mais uma
Cegonha do Alentejo,
Imponente e serena contra
Um céu sempre límpido.
Sei que hei-de morrer num dia
Como todos os outros,
E que o dia que lhe seguir será
Exactamente igual aos outros.
Só quero ir, suja de terra e cerejas,
De insectos, melodias e cegonhas.
Acima de tudo, quero morrer sem sonhos
E sonhar até ao dia em que morrer
Enrolada nos fios dos baloiços
Da minha imaginação.

1 comentário:

Pedro disse...

É por ti que ainda me lembro que a poesia pode ser bonita.

*