terça-feira, julho 27, 2010

São só doze

É por isto que o cheiro a fita-cola me incomoda… Não o da fita-cola normal, mas o desta castanha e grossa, e o barulho ensurdecedor que faz à medida que se liberta do rolo. Acho que é porque eu choro sempre baixinho, e talvez ela ache que deve gritar por mim. Gostava de saber como se põe a vida dentro de caixotes, porque embora a noite tenha sido um baile de montar caixas de cartão, por lá dentro coisas e fechá-las escrevendo no topo o seu conteúdo, sinto-me sempre frágil quando as olho. Quais delas se irão perder desta vez? Talvez viver seja só ir escolhendo o que deixar para trás… Por que pessoas não lutar mais, que livros dar às bibliotecas das escolas onde o meu pai trabalha, que roupas doar a instituições de caridade, que filmes dar aos vizinhos, e, no fundo, o que guardar no meio disto tudo. Dizem que o que tem de ficar são as memórias, mas nunca é assim. E eu não sei… Não sei se os meus filhos vão ser hippies ou betinhos, se vão gostar dos arrepios, dos cinco, ou de uma aventura, de filmes de princesas ou de filmes de aventuras. Não sei o que guardar. E depois vem a voz ao fundo do corredor deves achar que eu tenho uma arrecadação para guardar as tuas tralhas todas. E queria gritar, queria gritar muito, porque pus a minha vida em pouco mais de uma dúzia de caixotes. Vinte anos assim arrumados. Será que os senhores das mudanças vão aguentar com as caixas? Deito tanta coisa fora que me arrepio, tento não pensar. Desculpa Inês, não guardei a moldura que me deste, desculpa mãe, não guardei a carta que me escreveste, desculpa tia Lurdes, não guardei a boneca que uma vez me deste no Natal, desculpa Carolina, estou-te a deitar para o lixo, como já vai sendo hábito. Aguentas? E depois as coisas das pessoas que foram embora, que eu escondi e que aparecem sempre nestas alturas, como não podia deixar de ser. Eu perdida, a pensar se foram presentes ou esquecimentos, se devo perguntar se querem ou não as coisas de volta. Mas suponho que não queiram, afinal de contas foram embora. Se quiserem saber posso dizer que ficaram num caixote que se perdeu. Não ficaram… Estão no fundo de um caixote do lixo, com as minhas cassetes da Disney que eu vi até se estragarem, com os meus sonhos de ser feliz para sempre e que eu até agora me tinha recusado a deitar fora. Lá teve que ser. Um monte de sonhos rotos para o lixo… E de príncipes encantados. Encontrei-te a caminho de casa, cheia de caixotes por montar, toda despenteada e de fato de treino. E tu olhaste para mim ao de leve, nem paraste. Um olá rápido. Queria ter deixado cair tudo no chão e sentar-me na calçada, ainda que suja, para chorar um bocadinho. É estranho que tenhas uma vida nova e que eu ande a deitar tudo fora. Mas não pude parar. Um pé atrás do outro, vamos lá até casa, ainda há muito para arrumar, choras depois. Nem olhei para ti, para a tua cara. Reconheci-te pelo andar, depois pela voz. Lembro-me de pensar que queria estar bonita e confiante quando te encontrasse novamente… Mas que hei-de fazer, logo havias de me encontrar exactamente como eu sou, e não tive tempo de inventar uma máscara, de fazer desaparecer os caixotes, de pentear o cabelo, de vestir uma roupa bonita, de pintar os olhos, de esconder a voz trémula. Queria parecer bonita, queria que soubesses que estou bem, mesmo que eu não esteja muito bem e que não te interesse sequer como eu estou. Olho para a minha vida em caixotes, decidi guardar os livros todos. Lá foram os filmes e as roupas, os bonecos e as prendas dos que em tempos cuidaram de mim. Não sei se fiz bem. Sento-me na cama a tremer, pergunto-me que caixas vão desaparecer desta vez, novamente. Queria um abraço agora, mas faltando-me melhor, deito-me na cama (será que também a devia ter posto num caixote?) e enrosco-me nesse lugar imaginário onde não há vidas para deitar fora, nem pedaços dela para embalar. Se acreditasse no Natal, talvez embrulhasse e pusesse lacinhos coloridos em todos os caixotes. Mas esta noite é exactamente como o Natal, já não tem nada de bonito. Até as luzinhas dos prédios em frente de mim estão apagadas e mergulho de olhos fechados nos meus próprios pesadelos.

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