segunda-feira, agosto 09, 2010

Para T.

"Conto. Pouco mais de vinte dias, não tive coragem para voltar atrás no calendário e confirmar para ter a certeza. O mais estranho é que sei que isto não tem importância alguma. Quantos já foram e voltaram sem que o mundo tenha mudado? Fica quem ficar. Quero estar lá sem ter que ir, sem ter que apanhar um avião, sem sentir que queria um último abraço. Mas vou sentir. Pergunto-me do que terás saudades, é engraçado… Acho que temos saudades das coisas pequeninas. E pergunto-me repetidamente se quando vires passar uma qualquer rapariga ruiva te vais lembrar da flor de tecido vermelho nos meus cabelos, sempre em desalinho. Ou se ao te contarem um segredo vais sorrir por te vir à memória um meu. Talvez estejas, até, um dia deitado na cama à espera de ter sono e vejas os meus olhos no fundo dos teus, como quando eu quero chegar ao fundo, nem sei eu do quê. O olhar que eu faço quando estou a descobrir-te e todos os pormenores são simples, bonitos e valem a pena.

Suspiro. O Chico canta o meu nome, existirá uma letra mais verdadeira? Lá fora amor, uma rosa cresceu, todo o mundo sambou, uma estrela caiu. Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, olha que lindo. Mas Carolina não viu. Não vi… Perco-me nesta angústia que me deixa dormente. É como se dentro de mim houvesse uma chaleira a apitar, e eu vou correndo tudo aos tropeções sem conseguir encontrá-la. E é este apito agudo que me incomoda, às tantas não sei se é um comboio. E se for, entro nele ou não? Quero não pensar nisto, e fazer parvoíces, daquelas com significado, como mandar uma mensagem a alguém que está sentado imediatamente à nossa frente. Quatro palavras apenas. E o meu sorriso parvo. Sei exactamente o que me vai fazer falta. Sei os gestos que me vão fazer falta, as palavras que vou desejar até ao desespero, e os olhos, mesmo que os meus guardem tanta dor, e que nas minhas mãos as rosas morram, as festas acabem e os barcos partam.

Sorrio a medo. Chego a rir de mim, das minhas ilusões. Não vão haver saudades, nem um suspiro ou um encolher de ombros quando uma rapariga ruiva passar, ou uma rosa vermelha estiver caída no caminho. Há horas que não pertencem a este mundo, a esta vida, que existem sem existirem, e nós pertencíamos a elas. Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela, e só Carolina não viu. "

P.

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