terça-feira, agosto 10, 2010

São só doze (II)

Toda as gentes desta casa, deste museu, insistiram comigo continuamente, durante anos. Até que desistiram, com a eficácia das maiores falhas: sem se perguntarem porquê. Limpa aquele armário. Não, aquele armário é assim, desarrumado e cheio de pó, é assim que ele é. Não posso mexer-lhe, ninguém pode vê-lo, arrumá-lo ou limpá-lo, porque ele é assim. Mesmo que o fizessem, ele continuaria sempre sujo e desarrumado.
Estive a adiá-lo. Não porque soubesse exactamente as razões, mas porque sabia que era assim. Hoje teve que ser. Encaixotar o armário dos meus mortos vivos, ocupam tanto espaço já. Ainda não chorei, mas sei que tenho coisas por dizer.

D. Encontrei a caixinha que uma vez me deste, feita de madeira, com um vidro e um guardanapo pintado. E um coração que brilha no escuro, onde se pode ler na tua caligrafia redonda e certinha Adoro-te Carolina. Descobri ainda a cartolina que decoraste com um poema meu, e os teus desenhos e comprimidos. E um envelope. Lá dentro um coração de espuma, e novamente a caligrafia: a seguir a uma primeira oportunidade, vem a uma segunda. E se essa segunda não chegar haverá sempre uma terceira. Tanta verdade em tão poucas letras. Queria ter visto esse envelope muitas mais vezes durante a minha vida. Queria ter-te ido visitar e comer doce de amora e pão caseiro, e que tivéssemos tocado o over the rainbow afinadinhas e de sorriso no rosto, orgulhosas da simplicidade das coisas bonitas. Queria ter chocado mais vezes contigo no metro, Ofélia dos meus poemas.
M. A tela azul e turquesa, os postais escritos com juras de amor eternas. E o dia em que fomos a Lisboa, e eu comprei aquela saia branca contigo. Quando me sentei contigo no café, uns dias atrás, o mundo voltou atrás também. E contei-te a minha vida como se ainda ontem tivéssemos trocado aqueles postais e cantado juntas a Alice (lembras-te, as nossas vozes eram iguais). A tua memória sabe sempre aos cappucinos que íamos comprar ao mini preço quando no intervalo dos ensaios não havia mais, e às tardes em que me esticavas os cabelos e me maquilhavas com aquela base que cheirava a pêssego. E eu sentia-me bonita, então. Menina turquesa do meu coração.
G. A carta que me escreveste quando eu fiz 18 anos. Lacrada a roxo, num envelope de papel reciclado que guardava as folhas de caderno diário mais preciosas deste mundo. E o contorno da tua mão desenhada nessas folhas. Quando encostei lá a minha mão, o quarto ficou quente. Íamos ser amigos para sempre. E sabíamo-lo com tanta força, já tínhamos passado por tanto. Tu aprendeste a ser adulto comigo, e eu aprendi a ser criança contigo. Foi a coisa mais bonita que aprendi. E quando tu me davas a mão antes de entrares em palco… Não porque estivesses nervoso, mas para me dizeres descansa, estou aqui para sempre. Obrigada por também estares, gosto tanto de ti. E agora esta estranheza. Os meus passos a tremer em direcção a casa, não por mais nada sem ser a dúvida. A dúvida se algum poderei voltar à tua. A duas mãos, fotografias bonitas que eu fui perdendo. Ficou a tua carta.
I. Não imaginas o que eu encontrei, I. A lista, lembras-te? A lista de todas as coisas que eu queria ser e fazer, e que escrevi ao pé de ti. Já cumpri uma, I, acreditas? Já consegui fazer uma, e talvez faça outra, antes deste ano acabar. E encontrei a tua carta, muito direitinha, escrita a roxo, no NFPC. Disseste tantas coisas bonitas, num discurso organizado e brilhante. Lembro-me do fascínio, nesses dias. Da descoberta, então maravilhosa, de que não estava longe de todos os seres humanos. E os desenhos nas paredes que tivemos de apagar, e as tardes a andar de baloiço que não voltámos a repetir. E encontrei o lápis roxo que me trouxeste nos anos, I! Tem pouco mais de dois centímetros, mas fui ao espelho e voltei a pintar os olhos com ele. De repente, tinha outra vez dezasseis anos, e estava a entrar no autocarro para te ir visitar a Lisboa. Lembro ainda o 25 de Abril em que fui ter com vocês à praia, e rodopiei sobre o mar. Libelinhas e efémeras poisadas na verdade do seu nome, que dou por mim a desejar serem só mais uma mentira.
P. Em todo o lado, como não podia deixar de ser. Tenho a certeza que me vou esquecer de tudo o que encontrei. Foi uma cassete pequenina com concertos gravados que eu nunca passei para dvd (medo?), e a cassete que um dia, antes de tudo acontecer, desenhei para ti, e ampliei. E o livro de poemas, como é possível? Como é possível que eu tenha decido dar-te os meus poemas? Descobri garrafas de bacardi, gin e vodka, algumas muito cheias ainda, de quando vinhas jantar cá a casa. Já devem ter mais de dois anos, será que o álcool se estraga? Bilhetes infinitos de autocarros e comboios, e o cd de sigur rós. A caixa dos miminhos, com os rebuçados todos lá dentro (será que os rebuçados se estragam?) e um papel branco rasgado, com uma só palavra escrita. A camisola com que dormi tantas noites também está por aqui e olho tudo. Sei que à distância vivemos ainda o alívio da nossa distância. Dos dias em que a necessidade desse alívio não existia, resta pouco. O dia em que fomos ao teatro (13.Julho.2007) e em que eu chorei baixinho enquanto me abraçaste, ou o dia em que fomos buscar as tuas coisas a Lisboa. Depois, tudo manchado a sangue e palavras sujas. Talvez um dia. Não, talvez não.


Os pensamentos correm-me depressa pelas mãos sem que consiga vê-los com precisão. Penso em deitar tudo fora, que o que tenho que guardar está dentro de mim, mas não consigo. Quando pego nas primeiras folhas para as rasgar forma-se-me um nó imenso na garganta que não consigo desfazer. Depois corro para o telemóvel, quero falar com vocês, contar-vos o que acabou de acontecer. E de novo o nó na garganta. O que é que eu vou dizer? Que talvez só queira um dia vosso, para tentar ser a menina que fui um dia ao vosso lado. Mas que já não sou, e tudo perde o sentido. Olho tudo, monto um caixote e guardo as coisas com carinho. Numa das mudanças que já fiz foi exactamente este o caixote que se perdeu. Olho-o, já fechado, e pergunto-me que destino lhe daria agora, se pudesse escolher sem ter que admitir que escolhi.

2 comentários:

i. disse...

A tua carta para mim está guardada, no mesmo sítio de há 4 anos atrás. O post-it que me deixaste quando vieste a Lisboa, também esse continua na minha estante. A caixa que me trouxeste naquela altura em que eu precisei de um amigo, nunca lhe mexi. O conteúdo está como veio, é imaculado.
Isto para dizer que parecendo que não, eu ainda aqui estou. E que a distância é o que fizermos dela.

Ana Sofia Cavadas disse...

Este post deu-me vontade de arrumar o meu armário poeirento. Gostei muito do blog:)