sábado, outubro 30, 2010

Antes que nasça o dia

Derramo o verbo antes que raie o dia
Em clarões intactos de madrugada.
Sentada no parapeito de uma janela,
Perdida no Janeiro de uma aldeia que não conheço,
Aqueço numa caneca de café os pés esbranquiçados.
Vejo duas raparigas bêbedas que se beijam no caminho para casa,
Uma senhora vestida de azul que abre as portas de uma padaria,
Um homem que acorda e se senta direito num degrau que ainda dorme.
Escreveria grandes odes sobre as suas vidas que não conheço,
Cobriria a tinta azul folhas e folhas de papel vegetal,
Mas o sol nasce-me fremente nas pernas descobertas
E entre um trago de café invejo secreta as raparigas que choram, retocando-se num gesto de amor a maquilhagem,
A primeira cliente da senhora de azul a quem desejo mentalmente bom dia,
O homem que tira de um bolso do casaco cinzento um pacote pequeno de leite branco.
Raia o dia numa aldeia, nesta aldeia, e num bailado lento recolho da mesa de madeira “manhã submersa” que jaz ao pé de mim.
Bom dia, queria pão.

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