sábado, outubro 30, 2010

Música

O barulho de fundo é ensurdecedor. Não há porta que o trave, travos só os da angústia que sinto surgir no fundo da garganta. Engulo continuamente em seco.

Ao pé da porta há um grande espelho envolto numa moldura de prata. Olho para mim devagar, contemplo os sapatos pretos e breves, de salto alto, que envolvem as pontas de um par de collants pretos e finos. Tenho o cabelo transformado numa obra de arte complexa e os olhos completamente ocultos em pós de cores pouco definidas e linhas pretas, estrategicamente colocadas. Talvez por saber que não posso chorar, talvez por saber que neste momento há estranhos que poisam caules de copos de cristal sobre o piano onde sempre toquei; sinto litros de água envolverem-me os olhos, completando perfeitamente os globos oculares. Desejo ardentemente poder suspender a gravidade, será uma questão de segundos até não poder suportar mais isto.

A porta abre-se vitoriosa e a minha mãe inicia uma salva de palmas com sorriso mais-que-perfeito conjugado sem erros ortográficos. Todos a imitam, sentando-se numa qualquer cadeira. Pego num guardanapo branco de pano e limpo o piano. Quis atirar os copos todos para o chão, num movimento agudo. Onde é os limites da sinceridade começam a tocar a má educação?Distribuo a saia azul clara sobre o banco, desaperto os punhos da camisa, poiso os dedos sobre o piano. O barulho de fundo é assustador. Falam de modas. Planeiam negócios. Trocam receitas para crepes de maçã sem movimentarem os lábios.

Devia estar agora a cantar interiormente o início da sonata, mas os únicos sons que tenho na cabeça são os da minha mãe quando me diz que “a música é para ser partilhada, para mostrar aos outros, para animar festas e dar concertos”. Não sinto nada disto, os dedos movem-se em pânico e dentro da cabeça desenrolam-se marchas de agonia exacerbadas. Odeio cada pessoa que me vê sem as poder odiar, falho todas as notas na cabeça e quando finalmente deixo cair os dedos no último acorde levanto-me rápida, agradeço, com uma inclinação leve de cabeça.

Vou a uma casa de banho, arranco com água cada grama de maquilhagem. Troco rapidamente de roupa e, na casa de banho de uma discoteca qualquer parto contra uma parede escrita todos os copos que lá foram deixados. Piso o vidro até ser pó e, como uma louca danço descompassada (sem notas afinadas, sem dinâmicas certas) até não me lembrar que há caminho para casa. A música não pode ser só assim, como vocês pensam.

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