domingo, outubro 31, 2010

Paris

Ao fundo brilha a torre Eiffel
São horas certas, com certeza.
Ao fundo brilha a vida,
Acenamos aos mortos do lado de cá,
Se eles nos vêem, nunca vamos saber.
Talvez não haja lado de cá.
Aquele brilho ao fundo
É só o rio Sena.
As iluminações de Natal já chegaram aí?
Não sei. É estranho que não tenhamos
De fazer nada para estar vivos.
Ao fundo, os amantes brilham.
Pere Lachaise pisca-lhes o olho,
Ri à gargalhada. Mas eles não
Percebem a piada, encolhem
Os ombros e continuam entre mais
Um beijo.
Queria que nunca percebessem a piada,
Que não houvesse malícia alguma
Quando dão as mãos na rua.
Mas eles chegam a uma casa que não é a mesma,
E abraçam e amam pessoas que não são
As mesmas.
O que é que está mal, a sociedade ou as pessoas?
E enquanto rio da ironia desta pergunta
Notre Dame brilha ao fundo.
Os cadeados na pont des arts fazem antever
Que exista mais felicidade no mundo
Do que aquela que podemos ver.
Deixemos os mortos na sua vida,
Vivamos a nossa.
Teremos tempo para nos conhecermos
Ou reencontrarmos um dia. Não apressemos as coisas,
E pelo seguro… Só para o caso desses
Amantes sermos nós, não vamos dar
As mãos, nem não perceber a piada.
Paris brilha (sempre ao fundo)
Sem que lhe possamos tocar.
E isso tem que chegar.

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