sábado, outubro 30, 2010

Passeio no rio Sena.

Cinquenta e Quatro minutos que se arrastaram sem fim sobre as ondas do mar em fúria e sobre as palmas das minhas mãos de feridas cicatrizadas. Estão sujas e estão limpas, como é possível viver tanto mal de forma tão certa? Que mentiras são estas? Cinquenta e Quatro minutos, há vidas que duram menos. E entre o enjoo de ver o mundo correr em círculos e uma leve vontade de vomitar desejei morrer, embalada nas memórias quentes de não ter que pensar se parece mal, se está errado, se tem significado. Sou imune à maior parte das palavras, sabias? As pessoas falam comigo, eu aceno distraída, digo que sim e que não como quem brinca ao acaso. Mas depois os gestos, e a minha memória que volta pouco a pouco e arrepia tudo o que há em mim… Um tremor de terra interno. Não há um grão de maquilhagem que se mova, nem um cabelo que caia sobre o meu casaco preto. As minhas lágrimas continuam guardadas, arrumadas para outras dores. Mas por dentro, cá dentro, vou estar para sempre naquele mar, numa viagem sem fim para uma casa que não é a minha, para perto de pessoas que não são minhas, nem nunca poderão ser. O chão está vermelho, não há cicatrizes que segurem tantas perguntas sem resposta. E depois a banda sonora são estas vozes, sempre as vossas vozes que me dão o mundo e mãos sem sangue. Depois, levam os vossos sapatos sujos, deixam pegadas no meu chão que não saem nem com detergentes caros. E dizem sempre a mesma coisa, sempre as mesmas frases, tão frágeis que acho que se vão partir. Ou sou só eu que sou frágil? Sou imune à maior parte das pessoas, sabias? Só me conseguem salvar as pessoas que têm coragem para cair comigo, ver o mundo lá de baixo e sujo de verde como eu (mas Carolina, foi só um acidente). Chego ao meu destino, à minha estação que não é minha. A terra treme, eu tremo, e o mar chama-me: aqui não tens de chorar, todo eu sou água. As ondas ameaçam atirar-me para o fundo de qualquer coisa dentro de mim. É irónico. Há noites que não pertencem a este mundo, a esta vida. Porque deixarão, então, memórias? Mergulho no mar sem fundo para morrer num lugar onde, por umas horas, não houve porquês.

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