domingo, outubro 31, 2010

Pardon, je suis perdue.

Senta-se no muro alto, os pés a balançar sobre o vazio lembram um bailado simples, sem ritmo ou interacção. Como duas pessoas a dançar sozinhas na mesma sala… Talvez uma história comum as una sem saberem. Para já apreciam as maravilhas de poderem ser estranhas, sem uma conversa de ocasião para mostrar o quanto são sociais, adaptadas, capazes.
Do muro vêem-se as casas ao fundo, pequenas luzes, e vidas pequenas lá dentro. As televisões berram notícias de desastres insuportáveis, o pivot faz um ar sério, agora não há mesmo mais esperança. Mas a mãe pergunta se alguém quer mais cenouras, olha para os três filhos. Um está drogado (não que ela saiba já dizer a diferença), outro tem mais um 100% no dossier de plástico na mala (não que ela vá saber), e outro inscreveu-se ontem num curso de filosofia (não que ela vá fingir que não ficou desiludida. Se ao menos fosse médico…) São três mas são a mesma pessoa. O pai está no escritório, há dez anos. Ao longe parecem felizes, talvez o sejam.
O muro continua no mesmo lugar e o céu vai escurecendo, ainda que já seja noite. Neste momento biliões de pessoas vivem vidas que ninguém sonha existirem. Qual é a probabilidade de ter pensado na família em frente? Porque estamos sempre presos ao visível? A rapariga salta para o chão, durante uma fracção de segundos acreditou que ia torcer o pé esquerdo, mas ficou tudo bem. Está cansada da montanha russa de todos os dias, de se sentir sempre num parque de diversões onde a piada já acabou há muitos anos. Queria voltar a casa, ou encontrar uma. O que fazer com estes bocados de vida que lhe caem no colo sem que haja um continuo, um todo coerente? Como podem estar pessoas a morrer e a nascer no mesmo minuto?
Deambula sobre o parque silencioso. Acreditar no acaso cansa, não chega, às vezes. Mas onde está sentido, as causas, as explicações? Onde está a cola? Quando pensa no mundo tem a sensação de estar a olhar para um conjunto de páginas rasgadas de vários livros que encadernaram num mesmo volume só porque sim. E cansa tentar encontrar uma história que dê sentido às páginas, dói desistir e dormir parece uma bênção demasiado longínqua. Acende mais um cigarro, acende sempre mais um cigarro porque estas palavras nunca têm fim. São uma estação de rádio eternamente sintonizada, eternamente ligada. O pai chega finalmente. Há comida no frigorífico, se tiveres fome aquece. O telejornal chegou ao fim, o dia também. Num filme há uma personagem que diz que o amor é o que dá sentido a tudo o que existe. Mas eles já estão a dormir, não ouviram.
O cigarro começa a queimar os lábios. O coração de renda que a rapariga tinha preso ao casaco com um alfinete cai no chão de relva sem que ela dê conta. Ainda lhe põe um pé em cima antes de partir. Nem um tremor, um pressentimento, nada. É assim que nos tornamos mais frios, nem damos conta de como ou porquê. O resto são suposições. Talvez alguém tenha encontrado o coração, tenha sorrido e encontrado o sentido. Mas isso, ela nunca vai saber.

Sem comentários: